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Entrevista: Memórias de Yvone Duarte, a primeira mulher a ser graduada faixa preta na história do Jiu-Jitsu brasileiro

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Yvone Magalhães Duarte é a mulher responsável pela introdução do jiu-jitsu feminino em competições.

A partir da atuação dela como atleta e personagem ativo nos intermeios do Jiu-Jitsu esportivo, nos anos 80, foi possível uma participação feminina além da platéia e bastidores, em um esporte antes dominado exclusivamente por homens. Yvone se manteve invicta por vários anos em seu peso e foi campeã absoluta na faixa preta do campeonato brasileiro de 1991, ao finalizar sua adversária 6kg mais pesada. E, por ser responsável direta pela abertura da primeira divisão feminina nos campeonatos da Federação do RJ, entidade promotora dos campeonatos mais importantes da cidade berço do desenvolvimento – em pleno curso – do jiu-jitsu no Brasil, o Rio, Yvone também marca sua importância na história dessa arte marcial. Não bastasse, Yvone organizou sua própria equipe nos anos 90, em Brasília, ministrando aulas para 80 cadetes da Academia da Polícia Militar do Distrito Federal, o que atesta a confiança e o reconhecimento ao seu trabalho como lutadora e educadora, há quase 25 anos atrás.

unnamed  *Foto rara da equipe liderada por Yvone em Brasília

Não existe dúvida em afirmar que, se não fosse sua relevante contribuição, provavelmente todo o desenvolvimento do jiu-jitsu feminino teria sido postergado por mais alguns anos. A história de Yvone nos conta que, apesar de o mundo oferecer maiores dificuldades para alguns grupos por motivos que a razão não explica, o sentimento de capacitação e a confiança que o próprio jiu-jitsu injeta nos adeptos da arte, aliado a uma personalidade impetuosa, acabam tornando-se uma potência positiva capaz de promover e acelerar mudanças estruturais na construção histórica das coisas, o que beneficia a própria modalidade por gerações.

Somos todos gratos e gratas à Yvone Duarte por ter sido tão ativa e eficiente na implementação do jiu feminino, e agora teremos a oportunidade de tirar algumas dúvidas com ela sobre como tudo aconteceu:

Yvone, antes de mais nada, é uma grande honra conversar com você. Você acompanhou, desde o início dos anos 80, a proliferação do jiu-jitsu enquanto estilo de vida e arte marcial mais eficiente do mundo, segundo a proposta do Mestre Hélio Gracie, através de nomes da época e da eternidade do jiu-jitsu como Marcelo Behring, Rickson, Rilion, Rolls, Royler Gracie, de seu próprio irmão Pascoal Duarte (e posteriormente você mesma), a partir da zona sul do Rio de Janeiro. Segundo relatos e documentários, não era incomum que atletas de jiu-jitsu desafiassem outras modalidades de luta num movimento de rivalidade para demonstrar qual era a arte mais eficaz. Você chegou a participar de algum desafio de modalidade de luta mista ou a presenciar um? Teria alguma história peculiar sobre isso para nos contar?

Participei de campeonatos de Jiu- Jitsu e Judô. Mas, como morava na Rua Humaitá, na mesma quadra da academia Gracie Humaitá, por vezes sabíamos que haveria algum desafio entre lutas que disputavam a supremacia do Jiu-Jitsu. Alguém vinha propor e o desafio se dava no mesmo dia ou era marcado para acontecer em seguida na academia desafiada ou do desafiante. E a notícia rapidamente se espalhava pelos tatames, mobilizava as nossas atenções. Afinal, o jiu-jitsu sendo desafiado, nós praticantes nos sentíamos envolvidos. Eram anos 80/90, tempos em que diversas modalidades tentaram colocar em cheque a eficiência e superioridade técnica do Jiu-Jitsu no RJ. Contudo, ao que me consta, os nossos samurais, derrotaram inúmeras tentativas. Lembro do Rickson Gracie esfregando um desses desafiadores na praia. Não me recordo de nenhuma derrota do Jiu-Jitsu.

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Qual é a sua memória favorita dos tempos de treino no Rio de Janeiro?

 Sou muito grata ao Jiu-Jitsu. Tenho muitas boas lembranças do tatame. Quando comecei o Jiu-jitsu era uma família grande. Nos reconhecíamos na praia, nos shows, na universidade. Fiz boas amizades que se mantem ainda hoje. Nossos sábados eram dedicados a subir correndo uma ladeira muito ingrime em Copacabana, Rua Santa Leocádia. Você conhece? Se vir vai dizer, essa moçada era louca! Rsr

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Antes de ir morar no Rio e treinar jiu-jitsu, você já apresentava uma personalidade competitiva e um ímpeto atlético muito forte em outros esportes desde pequena, esportes onde a participação feminina já era mais comum, como ginástica rítmica, vôlei e natação. Por que escolheu o jiu-jitsu como modalidade esportiva definitiva? Encontrou desafios físicos no jiu-jitsu que você ainda não havia encontrado em outras modalidades esportivas?

Eu morei na infância em Boa Vista, Roraima. Lá aproveitei tudo o que a escola pública oferecia como modalidade de esporte. E tínhamos uma rivalidade enorme entre as escolas, assim comecei a competir desde cedo defendendo minha escola, minha equipe. E essa educação voltada às competições foi determinante para minha performance no Jiu-Jitsu na vida. Levei a flexibilidade da ginástica para o tatame. Aprendi a respirar na natação. Acho que aprendemos muito sobre concentração, sobre nossos limites e habilidades nos esportes individuais. Ali no tatame é você com seus medos, suas habilidades, e não adianta dizer q alguém não te deu a “bola redonda”, é você e ponto!

Como era a sua rotina de treinamentos e sua alimentação? Já era comum o uso de suplementos alimentares entre os atletas profissionais?

Eu sou da geração do Royler, De la Riva, Pascoal. Não tomávamos suplementos. Era na base do açai, tapioca, mamão, vitamina de banana e muito rola, muito treino.  Ah! Como tomei vitamina de banana feira pelo meu irmão antes dos treinos! Ouvia o liquidificador rodando e já chegava com meu copo!  rsrs
Treinava 3 horas por dia. Fazia um judô e corridas na praia ou na ladeira como preparação física e no mais: tatame.

Você poderia nos descrever o contexto feminino nos seus primeiros anos de jiu-jitsu? Quais eram suas colegas, adversárias e qual foi a sua luta mais memorável? As lutas em campeonato tinham qual duração?

Meu primeiro quimono era o segundo do meu irmão. Não haviam quimonos para meninas.
O ambiente na academia do Osvaldo era muito acolhedor, livre de machismo. De maneira que nos sentíamos praticando um esporte adequado. Nesse aspecto, a academia Osvaldo Alves foi vanguardista, deu o mesmo tratamento e condições de aprendizado. A equipe contava com muito boas atletas: Marina Alcântara, Fernanda Bulhões, Laila Zalfa, Ana Maria D`ávila, Lucia Moraes, Verinha,e eu. Nossa equipe foi pioneira, e por isso começamos a pressionar as federações para que abrissem as competições para nós.
Mesmo que poucas outras academias contassem com a presença de mulheres, já vislumbrávamos uma possibilidade de começo! E assim pisamos no tatame em 1985 para nunca mais sairmos das competições de jiu-jitsu. Eu tinha acabado de ter meu filho Pedro Henrique, esse ano ele completa 30 anos. Sim, eu treinei grávida!

Gravidez não é doença e o jiu- jitsu é ou não é uma arte suave? É!!
O parto foi normal. Entre a bolsa estourar e o Pedro nascer, todo o trabalho de parto durou 2:30h
3 meses depois, estávamos no tatame treinando e dando de mamar na boa!
As lutas eram boas! Eu sempre gostei de competição. As adversarias mais difíceis eram da Gracie Humaitá. As lutas duravam 5 min na azul e roxa, e 7 min na preta.

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Cada lutador/a trabalha as armas que tem a seu favor na hora de desenvolver o seu estilo de luta, adequando ao seu tipo físico e maneira de pensar. Você é descrita como uma atleta que lutava pra frente e tinha bastante sangue no olho na hora de rolar, além de ser bem leve e rápida. Existe alguma posição na qual acreditava ser mais eficiente para o seu biótipo na época das competições e ainda hoje? É o tipo de coisa que você acha que muda com o tempo ou só se aprimora?

O Paulo Caruso, meu amigo e contemporâneo na academia Osvaldo Alves, uma vez descreveu meu estilo com rápida e finalizadora. É bem verdade que todos nós tínhamos receio de sermos “garfados”. Por isso, treinávamos sob essa perspectiva: orientados para buscar a finalização. Não ficava amarrando luta em função da pontuação.  A luta para mim tinha que ter desenvolvimento: derrubar, passar a guarda e escolher uma finalização ou fazendo guarda buscar vantagens. Se houvessem obstáculos, e sempre haviam, deveríamos utilizar o conjunto de técnicas para avançar e da mesma forma responder às tentativas do adversário.
Sempre gostei dos estrangulamentos. Acho que venci a maioria das lutas aplicando estrangulamento invertido dentro da guarda.

Você deve ter visto o desenvolvimento de várias técnicas de guarda durante todos esses anos de jiu-jitsu, desde a sua incipiência. Tem alguma opinião sobre a atual guarda 50/50?

O jiu-jitsu é muito dinâmico. Algumas posições foram aprimoradas, outras estão de volta com a mesma eficiência. As possibilidades de posições, sequências e desenvolvimento da luta são infinitas. Cada um pode organizar seu jogo de acordo com suas características.

E arte é isso mesmo, é o como aquele trecho do livro/filme Carteiro e o Poeta: “A poesia é de quem dela precisa”, não é apenas do autor. O Jiu-jitsu- como arte- também é de quem dele precisa. Por isso, eu digo: quando precisei do jiu-jitsu com 1’57m e 52 kg, ele me foi muito generoso. Me deu condições de enfrentar adversidades, muito além das lutas no tatame.

Você lutava, também, sem kimono?

Não lutei sem quimono. Apenas treinava sem quimono na academia.

Muito obrigada por disponibilizar seu tempo e suas memórias gentilmente nessa entrevista, Yvone. Foi um grande prazer e uma grata oportunidade conversar com você!  Gostaria de fazer algum fechamento?

Não poderia terminar essa conversa sem agradecer aos mestres Osvaldo Alves, Pascoal Duarte e Paulo Caruso.  Incentivadores e pessoas que, compreendendo a arte do jiu-jitsu, foram generosos, exemplares e verdadeiros samurais!

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