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Como Nicky Rodriguez se tornou o ‘exterminador’ de faixas pretas sem fazer nenhum ponto em um evento que não era de jiu-jitsu

Nicky Rodriguez no ADCC (Crédito: Jiu-Jitsu in Frames)

É realmente notável o fato de que um, na época faixa azul de jiu-jitsu, tenha chegado no ADCC e deixado três faixas pretas para trás.

Foi o caso de Nicky Rodriguez. No ADCC de 2019, realizado em Anaheim, na Califórnia, o wrestler norte-americano venceu grandes nomes do jiu-jitsu e passou a ganhar notoriedade por parte da mídia especializada. Atleta da Renzo Gracie, Nicky foi graduado a faixa roxa no pódio do evento após ter conquistado o segundo lugar. Ele foi derrotado por pontos pelo campeão Kaynan Duarte, da Atos, na final da categoria +99kg.

Nicky conquistou vaga no ADCC na seletiva da Costa Oeste sagrando-se campeão. A experiência que ele consegue mostrar no jiu-jitsu (ao menos sem kimono) vem do wrestling. Ele começou a lutar aos 12 anos, ainda no ensino médio e em seguida, lutou no Ferrum College, terceira divisão da NCAA (universitária).

Depois de se formar na faculdade, ele começou a treinar jiu-jitsu em uma filial da Renzo Gracie de New Jersey, cidade onde nasceu e, mais tarde, passou a treinar em Nova York, aos cuidados do coach John Danaher.

Não há de se duvidar que Nicky Rodriguez tem potencial, mas o fato é que ele ainda não mostrou sua experiência no jiu-jitsu para ser o “exterminador” de faixas pretas.

Relembre sua trajetória no ADCC

  • Mahamed Aly – oitavas de final

O primeiro confronto de Nicky Rodriguez no ADCC foi Mahamed Aly. O brasileiro vinha de uma preparação muito forte para participar do evento pela segunda vez na carreira. Em 2017, na Finlândia, Aly acabou sendo derrotado nas oitavas de final por Rafael Lovato (99kg) e, no absoluto, foi parado na semifinal por Gordon Ryan.

Nicky conseguiu vencer Aly na decisão dos jurados – sem fazer nenhum ponto.

  • Orlando Sanchez – quartas de final

Na sequência, Nicky Rodriguez enfrentou o já experiente Orlando Sanchez, que já participou de quatro edições do ADCC (2013, 2015 e 2017), tendo sido campeão em 2015 e vice em 2017.

Em 2019, acabou sendo parado por Nicky nas quartas de final – por conta de uma penalidade. A luta acabou sem pontos também.

  • Roberto Cyborg – semifinal 

Já na semifinal, Nicky enfrentou Cyborg que estava em sua sexta aparição no ADCC (2009, 2011, 2013, 2015, 2017 e 2019). Cyborg foi campeão absoluto em 2013, vice em 2009 e terceiro em 2011, 2013 e 2017. Em 2015, foi derrotado por André Galvão na superluta.

Para avançar para a final, Nicky venceu Cyborg por decisão dos jurados – também sem pontos. O experiente Cyborg chegou a reclamar com a arbitragem por conta de tantos ataques e uma quase finalização no arm lock, mas o resultado se manteve.

Cyborg contesta decisão da arbitragem a favor de Nicky Rod no ADCC (Foto: Jiu-Jitsu in Frames)

  • Kaynan Duarte – final

Na final, Nicky encontrou Kaynan duarte que vinha de uma embalada temporada sem kimono. Uma luta movimentada e com muitos ataques, Kaynan conquistou as costas do oponente e conseguiu garantir os pontos para sagrar-se campeão e deixar o adversário com o vice (3 a 0).

Menos de um mês depois, os dois novamente se enfrentaram no Fight 2 Win, quando Kaynan finalizou o norte-americano com uma chave de calcanhar.

Nicky não participou do absoluto, que foi vencido por seu companheiro de equipe Gordon Ryan.

Kaynan Duarte nas costas de Nicky Rodriguez no ADCC (Foto: Jiu-Jitsu in Frames)

  • Outras lutas ‘pós ADCC’

O fato é que depois do ADCC, Nicky Rodriguez ficou realmente mais conhecido e passou a ser convidado para alguns eventos. Mas muito além de “exterminador” de faixas pretas, vale lembrar que ele teve duas derrotas contra faixas pretas (Lucas Barbosa, da Atos e Victor Hugo, da Ribeiro). Além de ter também em sua ficha dois empates contra Vinny Magalhães e Cyborg, ambos no Kasai Pro 7.

De todas as vitórias que Nicky Rodriguez conquistou contra faixas pretas, ele finalizou apenas duas: contra Victor Silvério (mata-leão) e contra Bruno Bastos (chave de calcanhar). Contra Luke Rockhold, ele também venceu na decisão dos árbitros e apenas uma ele venceu por pontos: contra Kyle Boehm.

Sendo assim, pode-se concluir que o “exterminador” de faixas pretas tem, a partir do ADCC contra faixas pretas:

13 lutas
7 vitórias (2 finalizações, 1 por pontos e outras 4 por decisão)
4 derrotas
2 empates

É claro que Nicky Rodriguez mostrou ter um grande potencial, mas vale lembrar que o ADCC é um evento que reúne atletas de várias modalidades, apesar da grande maioria ser do jiu-jitsu e os seus feitos no esporte não devem ser um demérito para os faixas pretas.

Outros wrestlers que chamaram a atenção na história do ADCC

Parte da imprensa norte-americana tenta perpetuar a ideia de que Nicky Rodriguez foi o primeiro Wrestler bem sucedido no ADCC. Entretanto, no final da década de 1990, dois wrestlers conquistaram feitos maiores que os de Nicky Rodriguez no ADCC. Mark Kerr e Aleksandr Savko venceram grandes nomes da época utilizando técnicas dos seus respectivos esportes base.  Veja um pouco do retrospecto dos dois atletas no maior evento de grappling do mundo e compare com as vitórias conquistadas pelo aluno de John Danaher.

Mark Kerr

Mark Kerr tornou-se conhecido do público brasileiro após vencer Fábio Gurgel na final do WVC 3. Mas antes de começar a sua carreira no Vale-Tudo (na época o esporte ainda não era chamado de MMA), Kerr construiu uma carreira de Wrestling representando a Universidade de Syracuse. Em 1992, Kerr ficou em primeiro lugar da NCAA na categoria até 86kg. Na carreira internacional de wrestling, Kerr participou de algumas seletivas olímpicas e no Mundial de Wrestling Freestyle de 1994, conquistou o sétimo lugar.

No ADCC, Kerr escreveu seu nome na história ao conquistar três ouros na competição. Em 1999, “The Smashing Machine” venceu a categoria acima de 99kg do evento (a mesma de Nicky Rodriguez), vencendo nomes como: Carlão Barreto, Josh Barnett e Sean Alvarez.

Em 2000, Kerr retornou para defender o seu título e conseguiu repetir o feito do ano anterior com o acréscimo do ouro no absoluto, vencendo nomes como Ricardo Cachorrão, Rigan Machado e de quebra, finalizou Josh Barnett com uma americana. Em 2001, Kerr retornou para uma superluta contra um dos principais nomes do Jiu-Jitsu na época, Zé Mário Sperry e venceu por pontos.

Em 2003, no ADCC realizado no Ginásio do Ibirapuera, Kerr veio defender o título de campeão da superluta diante de Ricardo Arona, que havia sido campeão peso e absoluto do ADCC sem tomar nenhum ponto sequer. Longe da sua forma física de outrora, Kerr não foi páreo para Arona, que venceu o combate por pontos.

Aleksandr “Sasha” Savko

Aleksandr Savko lutando contra Ricardo Libório no ADCC 1999 – Foto: Marcelo Alonso

Além de Mark Kerr, outro wrestler teve papel de destaque na edição de 1999 do ADCC. O Bielorusso Aleksander “Sasha” Savko foi um dos destaques da categoria até 88 kg. Campeão Mundial de Wrestling em 1987, Sasha era mais um atleta soviético de alto nível técnico. Com a dissolução da União Soviética, Sasha continuou competindo no Wrestling representando a Bielorussia e representou o país no Mundial de 1994, onde obteve uma grande vitória sobre Kevin Jackson (Campeão Olímpico em Barcelona – 1992 e Hall da Fama do Wrestling Mundial) e nas Olimpíadas de Atlanta em 1996.

Após as olimpiadas, Savko se juntou ao time de instrutores do Abu Dhabi Combat Team, que contava com nomes como: Ricardão Morais, Sean Alvarez, Marcelo Tetel e Kareen Barkalaev. No ADCC de 1999, Savko usou suas técnicas de Wrestling e venceu Omar Bouchie na primeira fase. Nas quartas de final, venceu nada mais nada menos que Fábio Gurgel (Bicampeão mundial de Jiu-Jitsu na época). Na semifinal, o Bielorusso venceu Ricardo Libório, um dos grandes nomes do imbatível time de Carlson Gracie. Na final, Sasha perdeu na decisão para o seu companheiro de time, Kareen Barkalaev.

No ano seguinte, Sasha disputou o ADCC novamente e perdeu na primeira fase para Nino Schembri por finalização (Omoplata). Sasha faleceu em 2004, vítima de um ataque cardíaco. Companheiro de Savko nos tempos de Abu Dhabi Combat Team, Marcelo Tetel descreve Sasha como um grande amigo e um excelente atleta.

Conclusão

Sabemos que Nicky Rodriguez tem os seus méritos na conquista da medalha de prata do ADCC, entretanto é necessário separar algumas questões. Essas vitórias não o colocam no patamar de “Exterminador de faixas pretas” que alguns veículos querem impor a toda comunidade do jiu-jitsu.

Nicky Rodriguez faz parte de uma nova geração do esporte que utiliza-se do famigerado “trash talking” para ganhar popularidade e status. É um direito dele agir dessa forma, afinal isso rende mídia e patrocínios. Porém temos que ser francos: não dá para atribuir uma alcunha de “Exterminador de faixas pretas” em um atleta que tem sete vitórias, quatro derrotas e dois empates em seu cartel, sendo que todas essas lutas foram em eventos NOGI / ADCC.  E mesmo sendo um wrestler no meio de atletas de jiu-jitsu mais experientes, Nicky não é nem o melhor Wrestler que já passou pelo evento.

Isso sem mencionar o fato de que Nicky nunca lutou em eventos com kimono com nenhum faixa preta.

Para nós do BJJForum, o único “Exterminador de Faixas Pretas” que conhecemos se chama Rodolfo Vieira Srour, que em 2009 ainda como faixa marrom, venceu o Abu Dhabi World Pro.