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UFC x McGregor: A criação de um monstro

Foto: Divulgação / acervo da internet

Foto: Divulgação / acervo da internet

Essa semana uma bomba explodiu na comunidade do MMA. Conor McGregor, o lutador mais badalado do momento, anunciou sua aposentadoria. Na verdade, a sequência de fatos foi a seguinte: Num tweet enigmático, McGregor disse que iria se aposentar; depois disso o UFC o retirou do card do UFC 200 (maior evento da companhia nos últimos anos); porém o irlandês voltou atrás, disse que não estava aposentado e que continuava treinando para a luta contra o Nate Diaz, mas não queria participar da promoção do evento pois queria focar 100% nos treinos; acontece que o UFC não voltou atrás de sua decisão, e manteve Conor fora do card.

Está bem claro que existe algo por trás de tudo isso, e o fato do real motivo não ter sido revelado fez com que surgissem diversas especulações. Chael Sonnen foi o primeiro a cantar a bola que o irlandês estava blefando, e estaria usando o argumento da aposentadoria como ferramenta de negociação. Realmente o Sonnen estava certo nesse sentido pois não demorou muito para que Conor voltasse atrás na aposentadoria. Mas na opinião do ex-contender meio-médio do UFC, o motivo do blefe do irlandês foi por estar querendo ganhar ainda mais dinheiro. Porém o próprio Chael reconheceu que não tem nenhuma informação de bastidores, então essa também é uma especulação. Na minha opinião pessoal, McGregor não quis sair da Islândia (onde está fazendo o camp de preparação para a luta) para viajar à Las Vegas pois sabia que a partir do momento que pisasse nos Estados Unidos, seria submetido a diversos testes antidoping pela USADA, agência que controla os testes em todos os lutadores da organização. A nota do UFC dizendo que ofereceu montar em Las Vegas um camp idêntico ao que o Conor tinha na Islândia, para que não atrapalhassem seus treinamentos, reforçam a minha teoria. Porém como não existe nenhuma prova contra McGregor nesse sentido, não vou me alongar muito nesse tema de doping, justamente por se tratar apenas de uma especulação.

O foco principal desse artigo é tentar enxergar a situação pelo ponto de vista dos dirigentes do UFC e também pelo ponto de vista do Conor, e tentar refletir sobre como isso pode impactar nos negócios. Nos últimos artigos dessa coluna eu tenho sempre falado sobre o favoritismo que o UFC dá ao McGregor e o quanto isso poderia ser prejudicial para a companhia no futuro. Porém eu não esperava que fosse num futuro tão próximo. Resumidamente, McGregor acredita que se tornou mais popular do que o próprio UFC. Ele é o cara que consegue fazer qualquer card vender mais de 1 milhão de pacotes de Pay-per-view, independente dos outros lutadores que estejam participando do evento. O tweet de sua suposta aposentadoria em 12h já havia sido mais retuitado do que havia sido o tweet da aposentadoria de Kobe Bryant em mais de 1 mês. A ESPN interrompeu uma entrevista com Lebron James para anunciar em primeira mão que The Notorious havia se aposentado. Conor McGregor se tornou o cara mais popular da história do MMA, em pouco tempo de carreira, e por ser jovem isso subiu para sua cabeça. A forma como o UFC lidava com ele, mimando e aceitando todas suas exigências, facilitaram para que esse processo acontecesse ainda mais rápido. Agora o UFC está tentando consertar tudo isso enquanto ainda há tempo, pois mesmo o treinador de Conor, John Kavanagh, iniciando uma campanha nas redes sociais para o público pedir que ele volte ao card do UFC 200, até o momento dessa publicação a organização continua mantendo-o fora do evento. Além disso, Dana White já disse que não há possibilidades do irlandês lutar em Nova York, evento com potencial para ser até maior que o UFC 200, e que se espera que as grandes estrelas estejam presentes.

Pode ser que realmente o aceitem de volta, pensando nas vendas, ou pode ser que não deem o braço a torcer. Provavelmente ficaremos sabendo nos próximos dias qual será a decisão definitiva. E com certeza essa negociação está sendo feita nesse momento, entre a alta cúpula da organização, que está decidindo se vale a pena perder os pacotes de PPV que seriam comprados a mais caso o Conor participasse do evento. O UFC tem uma carta na manga, e uma baita carta diga-se de passagem: Georges St. Pierre. O canadense que está atualmente aposentado do esporte após reinar absoluto por anos na categoria dos meio-médios, é considerado um dos melhores lutadores da história do esporte, além de ter sido o maior vendedor de PPV da história do UFC. Se conseguirem fazer com que GSP volte no UFC 200, eles poderão deixar o Conor de lado e ficarem tranquilos pois com certeza a volta do GSP garante que o evento venderá muito mais de 1 milhão de PPV. A outra opção seria Ronda Rousey, que além de Conor e GSP, é a única lutadora que apenas sua presença já garante bastante vendas de PPV. Acontece que a Ronda já deixou claro que não lutará em julho, portanto essa carta pode ser considerada fora do baralho, sobrando apenas o GSP como carta na manga do UFC. Porém o canadense declarou recentemente que o acordo com a Reebok está atrapalhando seriamente essa negociação. Ou seja, existe a possibilidade de não dar certo, e o UFC perder sua carta na manga. Caso isso aconteça, eles vão ter que tomar uma decisão sobre McGregor, e qualquer uma das duas opções vai ser uma decisão difícil de tomar.

Caso optem por voltar atrás e permitirem que o irlandês participe do evento, eles irão ganhar muito a curto prazo, ou seja, com as vendas de PPV no UFC 200, porém no longo prazo pode ser prejudicial, pois a empresa estaria se submetendo às vontades de um funcionário, e isso gera insatisfação de muitos outros atletas, além de abrir precedentes para outros lutadores agirem de forma semelhante, mostrando que o UFC estaria claramente perdendo as rédeas do negócio. Já se optarem por manter o Conor fora do evento, e sem poder contar com o GSP, eles irão perder no curto prazo, pois o evento dificilmente venderá muitos PPV com Aldo x Edgar no main event, porém eles estariam mostrando a todos que esse tipo de atitude não é tolerada na empresa, e que não existe favoritismo ao ponto do McGregor agir da forma que quiser. Ou seja, estariam mostrando para todos que mesmo o funcionário número 1, aquele que traz maiores lucros para a empresa, será punido caso aja dessa forma. Além de não correrem o risco de perder o controle de seus funcionários, ainda por cima evita insatisfação devido a qualquer tipo de favoritismo. O fato do Dana White ter rechaçado a possibilidade de Conor lutar em NY e ainda por cima dizer que ele provavelmente lutará no UFC 202 (evento com muito menos prestígio que o 200) dá um sinal que a decisão do UFC será de tentar colocar o Conor no seu devido lugar, já que o sucesso subiu a sua cabeça rapidamente.

O UFC vai perder de uma forma ou de outra. A decisão que tomarem agora pode ou não impactar no futuro da empresa. Eu acredito que essa decisão estará diretamente ligada com o caminho que a companhia irá seguir nos próximos anos. Recentemente foi abordado aqui na coluna que a parceria com a Reebok atrapalhava os negócios, e é justamente ela que está atrapalhando o GSP na negociação com o UFC, tornando a empresa tão dependente de McGregor para o sucesso de vendas do UFC 200. Também falamos sobre funcionários declaradamente insatisfeitos e alguns deles inclusive deixando o UFC por vontade própria para assinar com o Bellator, e o favoritismo a certos atletas com certeza é um dos motivos para muitos lutadores estarem insatisfeitos. Não colocando o Conor de volta no card, o UFC diminui a insatisfação de seus atletas, e evita perder mais lutadores para seu principal concorrente, mas corre o risco de ter um evento tão promovido se tornando um fiasco de vendas. É uma decisão difícil a ser tomada e na minha opinião o UFC deve manter o McGregor fora do evento, mesmo se não tiver o GSP. Vão perder agora mas vão retomar as rédeas da empresa, que é o mais importante no longo prazo. E você, leitor, o que faria se estivesse no lugar de Dana White?

About Brutus

Filipe "Brutus" Andraus tem 29 anos e é fanático por MMA desde os primórdios. É formado em marketing e atua na área comercial. Em suas colunas irá explorar o MMA de um ponto de vista diferente, analisando os fatores comerciais, esportivos e de entretenimento.
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