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Tudo posso naquele que me fortalece? Nem tudo, Jones.

Filipenses 4:13 – Tudo posso naquele que me fortalece.

O dia é 31 de janeiro de 2009. MGM Grand Garden Arena completamente tomado por 15 mil fãs em polvorosa pela luta principal do UFC 94, um duelo que prometia ser mítico: a segunda luta entre os campeões Georges St. Pierre e BJ Penn. O havaiano, detentor do cinturão do Peso Leve, subiu de categoria para ter sua revanche e lutar contra o canadense disputando o cinturão Meio Médio que este detinha.
 
Naquela mesma noite, um jovem de 21 anos fazia a sua segunda luta no evento na categoria Meio Pesado contra um adversário gabaritado, com nome de peso e que vinha de duas vitórias seguidas e 5-3 no evento: o finalista do primeiro TUF, Stephan Bonnar. O jovem? Jon Jones.
 
A terceira luta do card principal pegou muita gente desprevenida, foi um show de Jones. Um domínio raro do octogan, uma marcação de distância irritantemente eficiente e golpes plásticos (mas eficientes) marcaram os fãs naquela noite. Dificilmente alguém se esquecerá da cotovelada giratória que fez Bonnar desabar no chão com uma violência e brutalidade de arregalar os olhos. 
 
Jones ali, de fato, se apresentou para o mundo. 
 
Na semana que antecedeu a luta outra coisa chamou a atenção. O americano de Rochester recusou a estadia no luxuoso hotel reservado aos lutadores, e foi ficar com a família em um outro, mais distante e longe da badalação. Queria sossego, paz e concentração. 
 
Pouco mais de seis anos depois, Jones tinha mudado. Ostentava uma cinta de campeão há 4 anos, com 8 defesas de cinturão (rumando ao recorde do brasileiro Anderson Silva, com 10) e inquestionável domínio no UFC, sendo a maior estrela até então. Ele lutaria o evento 187, em maio. Bom, lutaria… Pois, no final de abril, Jon Jones provocou um acidente de trânsito e fugiu do local sem socorrer as vítimas – uma mulher grávida fraturou o braço na ocasião. Antes disso, ele havia sido flagrado no antidoping na preparação para a luta contra Daniel Cormier, no UFC 182 (que foi sua última luta até aqui), por cocaína. 
 
Após quase um ano, voltou a ser reintegrado ao evento e escalado para enfrentar (novamente) Daniel Cormier pelo cinturão do Peso Meio-Pesado. Mas Jones, novamente, acabou se envolvendo em uma polêmica com as autoridades: acusado de participar de um racha e, de quebra, preso por violar a condicional.
 
Naquela noite de janeiro de 2009, estava claro que Jon Jones viria ser um lutador espetacular. O que surpreendeu mais que o título e a manutenção do cinturão foi o jovem focado e avesso a badalações passar a ser visto constantemente em noitadas, confusões com a Justiça e envolvimento com as drogas.
 
A cocaína foi significativa para a derrocada da carreira de muitos atletas, alguns tão excepcionais quanto (ou mais) que Jones: Maradona, Sotomayor e Tyson são alguns dos atletas que marcaram época e polêmicas, e tiveram um fim melancólico muito por causa da vida desregrada e consumo de drogas. 
 
Mas o que levou “The Bones” a perder tanto controle da sua vida, ser destituído como campeão e ver patrocínios escorrerem pelo ralo?
 
Seria impossível marcar com exatidão os porquês da perda de rumo do ex-campeão. Somente Jones e o seu psicólogo podem chegar a uma conclusão satisfatória sobre isso, é verdade. Mas podemos pontuar situações para que possamos olhar para o que ocorre com ele como um alento próprio ou para pessoas que nos importamos, ao invés de ter base apenas para achismos condenatórios.
 
A primeira coisa que podemos desconsiderar como hipótese é o uso para doping. Afinal, Jones tem muito mais recursos para drogas esportivas com efeitos (e anti-detecção) bem superiores a cocaína, que serviria no máximo para inibir apetite (para a perda de peso) e energia (para treinos, pois teria que ser usada 30 minutos antes, ao menos). Logo, o uso (ou o início do uso) se deu, provavelmente, por questões situacionais ou emocionais. 
 
Dinheiro, fama e uma rotina exaustiva (que pode levar à necessidade de recompensa) podem induzir qualquer pessoa, sem o devido auxílio, a se perder na ilusão que pode tudo. Não é fácil absorver tudo isso na prática, ainda mais sendo tão jovem, mas o que não o desresponsabiliza – evidentemente. Ironicamente, Jones possui o versículo de Filipenses que diz “Tudo posso naquele que me fortalece” tatuado no peito. Não, não pode! E dificilmente o apóstolo que fez a citação estava se referindo a levar uma vida desprovida de cuidados com a saúde.
 
Toda situação criada em volta do americano o careceu de alinhar-se à realidade, o que fica bem claro no vídeo no qual foi abordado por um policial em uma possível racha de carros. Como Anderson Silva, famoso pelas suas incoerências, disse muito bem: “O UFC deveria ter um treinamento para que novos talentos do evento e possíveis campeões tenham acompanhamento para saber conviver com vitória, dinheiro, fama… “, disse o brasileiro. Se olharmos como Conor McGregor lida com sua fama de maneira polêmica tendo o aval do próprio evento para isso (pois gera retorno e mídia), entendemos o que ele quis dizer. O problema é quando o lutador perde o controle total e isso influencia numa gama de ocorrências que às vezes o UFC não dá conta – e desliga-se, como de certo modo fez com Jones. 
 
Aliás, McGregor teve, recentemente, o seu nome ligado a uso de cocaína por um jornal sensacionalista espanhol. Era verdade? Não sabemos, mas já é o suficiente para ter um cuidado com o ser humano Conor McGregor, e não apenas com o produto e marca que o irlandês carrega.
 
Jones ainda é jovem e esperamos que ele tenha ainda muitos anos como profissional. Mas que ele se cuide e que não passem a mão na cabeça dele por interesses. A História já nos mostrou que não há talento que consiga sobrepujar as drogas, mas cuidando de si, dos desvios do próprio caráter e se apegando a quem tem como interesse apenas somar, quem sabe não estaremos olhando, realmente, para o “greatest of all time” daqui a alguns anos? Os amantes do MMA estão na torcida. 
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