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Técnica, força, físico e… Ciclo: A realidade do doping no UFC

Lyoto Machida, o mais recente lutador que caiu no cerco ao doping.

Anderson Silva, Frank Mir, Stephan Bonnar, Yoel Romero, Hector Lombard, Toquinho Palhares, Jake Shields… O que esses lutadores têm em comum? Bom, para o fã de MMA, não é difícil. Todos caíram no exame antidoping e passaram a ostentar a imagem nada agradável de atletas sujos – que se drogam com substâncias proibidas pelo rendimento de alta performance.

No último dia 13 de abril, veio à tona mais um caso: Lyoto Machida, que admitiu o uso ainda durante a coleta de amostragem de um produto com substância proibida. “Logo o Lyoto?”, pensam alguns. Para outros, como o americano Tim Kennedy (que já havia acusado o nipo-brasileiro), “finalmente o Lyoto”. Para quem não é competidor e apenas mais um fã do esporte, os preceitos levados pelo ex-campeão do UFC aos combates era quase uma “carta branca” à ética ao esporte. Sempre respeitoso e avesso ao “trash talking” (a “arte” de discursar provocativamente antes das lutas), Lyoto tinha uma imagem inabalável. Contudo, para quem é atleta, o doping é uma realidade que muitos levam como inerente para chegar ao topo das competições. Nem mesmo Kennedy, que fez a acusação, está a salvo de questionamentos. Como no caso do lutador do WSOF, Jon Fitch, que certa vez disse: “Eu acho isso uma covardia. Esses (que usam esteroides anabolizantes) são os fracos de cabeça. Acho que a multa da comissão atlética não é suficiente”. Pouco tempo depois foi Fitch que caiu no antidoping.

A quantidade de casos evidencia o fato de que muitos usam. Mas o que leva atletas, muitos com a carreira já consagrada, a recorrerem às drogas ou substâncias para melhora de performance? Bem, primeiro temos que entender a cultura do esporte.

Nas competições iniciais de um praticante de jiu-jitsu ou wrestling já é bem comum o uso de drogas anabolizantes. Sem controle algum, já que depende de um alto custo, os atletas ficam livres para se doparem e terem um rendimento melhor e uma recuperação mais eficaz. Além disso, a confiança no poder da substância também aumenta a motivação e implicação nas lutas. Ao ponto que a carreira vai ganhando contornos cada vez mais profissionais e chegando as principais competições, os testes passam a ser uma realidade e uma obstáculo a mais. E como se sentir confiante em abandonar as drogas após uma carreira (ou boa parte dela) em constante uso? A confiança e autoestima sustentadas pela manipulação do rendimento muitas vezes não deixam. O lutador não se sente mais seguro com a sua técnica, pois ele sabe que não foi somente ela que sustentou o seu rendimento. Muitos que chegaram a esse estágio escolhem o perigoso caminho dos ciclos, onde calculam o tempo dos exames oficiais e torcem para não serem escolhidos de surpresa. Fora outras metodologias que, com quanto mais dinheiro e experiência, mais elaboradas e difíceis são de serem detectadas .

A cultura do MMA também não ajuda. Até pouco tempo, o extinto evento japonês Pride FC, que era considerada a maior competição de MMA do mundo até o seu fim em 2007, fazia vista grossa para aqueles que usavam substâncias dopantes. O importante era o show em alto nível. Com o crescimento do UFC e a adaptação às comissões atléticas americanas para regularizar e popularizar o esporte, o cerco as drogas teve que ser apertado.

Vivemos o ápice da sociedade do espetáculo. Ainda mais com a internet, ser famoso pelo trabalho (ou não) é a busca de muitas pessoas. Nos esportes de alto rendimento, onde a imagem pessoal é iluminada pelos holofotes da vaidade, a fama passa a ser uma necessidade de muitos, potencializada pelo retorno que ela oferece: reconhecimento, poder e dinheiro. Conseguir isso sem resultado expressivos se torna inviável, pois a tendência do retorno a essas expectativas se dá por uma grande parcela de fãs que estão interessados na imagem do vencedor, não do atleta que é um bom competidor, apenas.

Para chegar ao nível de excelência no meio, o profissional tem que ser uma exceção quanto ao conjunto do talento – técnica, condicionamento físico e força. Mas a técnica uma hora chega a um ponto onde a evolução fica mais e mais difícil, e o condicionamento físico e a força começam a sofrer reveses (por uma questão do limite genético, lesões e/ou idade). Muitos desportistas, quando percebem a dificuldade para chegar a tal nível, se desmotivam e perdem a confiança. O que é potencializado, sobretudo, se tiveram experiências na carreira com as drogas – como dito anteriormente.

Muitas vezes essa autopercepção não corresponde ao que o atleta realmente pode render. Transtornos emocionais, tribulações pessoais e baixa autoestima muitas vezes fazem o sujeito se enxergar aquém do que é e pode realizar. Porém, o contrário também ocorre. O ego inflado e a dificuldade de aceitar que o corpo não corresponde mais a exigência da competição também podem dificuldade do sujeito em aceitar que o limite dele não é mais as primeiras colocações do ranking.

Machida já tem 37 anos e sempre foi um lutador menor que os seus adversários, muito mais fortes e agora mais jovens em sua maioria. Já sofreu danos físicos significativos e tem a pressão de se colocar entre os melhores da divisão. Mesmo com o cerco se fechando. Poderia se contentar em ser mais um competidor, mudar para um evento tecnicamente mais fraco ou se aposentar. Segundo ele, o uso de um suplemento banido se deu de maneira ingênua  sem que ele tivesse a consciência da proibição, mas dificilmente deixará de ser julgado por má fé, inclusive pela opinião pública. Fora os questionamentos que virão sobre suas vitórias anteriores. Uma ironia, já que na busca em manter uma imagem vencedora Lyoto agora corre o risco de perder outra: a de artista marcial respeitoso, que construiu durante a carreira. Já que o maior desrespeito ao adversário é a trapaça.

About Eduardo Gomes-Coelho

Eduardo Gomes-Coelho é psicólogo clínico e estará aqui semanalmente contextualizando o universo do MMA dentro de uma visão diferenciada do esporte, focada no lado "humano" dos lutadores.
  • Carlos Leo

    Só pra esclarecer que o suplemento que o Lyoto usou não é anabolizante, não tem efeito hormonal, e na verdade não existe compravação científica nenhuma pra dizer se trás algum benefício físico.
    É encontrado em qualquer supermercado americano do lado da vitamina c.
    Comparar 7-keto com “ciclo” é igual comparar amendoim com viagra.

    • Eduardo Gomes-Coelho

      Olá, Carlos Leo, muito obrigado pela sua colaboração. Sem qualquer edição no texto (que terei que realizar depois, pontualmente em questões de português), em nenhum momento digo que ele ciclou, mas falo da questão da imagem dele frente a opinião pública e dos diversos casos de doping no esporte. Afinal, o texto não é sobre o brasileiro, ele foi o último caso. Contudo, o atleta é o principal responsável pelo o que toma e usa, e o suplemento que Lyoto usou está na lista da WADA desde 2012. A diferença do atleta para mim e talvez para você (caso não seja competidor) é essa: não pode tomar qualquer coisa que encontra no mercado. Espero que continue participando sempre!

  • Lamar Xavier

    Bela matéria! Os organizadores de torneios vão ter mesmo que se debruçar sobre essas questões.

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