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Premiação feminina em campeonatos: A Atleta x O Organizador

Como competidora, eu realmente acho injusta a premiação feminina ser inferior que a masculina. E isso é um fato histórico, seja no futebol, no basquete, no ciclismo e na maioria dos esportes – embora algumas coisas já estejam sendo mudadas, como no US Open que revolucionou a história dos Grand Slams de tênis, sendo o primeiro a pagar premiação igual para homens e mulheres.

Já falamos aqui sobre a luta feminina em relação a premiações iguais (além de desafios que são muito maiores do que dinheiro), mas gostaria de falar hoje sobre dois pontos de vistas diferentes: ponto de vista do atleta versus ponto de vista do organizador.

Hoje em dia, é cada vez mais comum vermos campeonatos fora das federações dando prêmios em dinheiro e muitas vezes, ao olhar que a premiação de um faixa azul masculino é maior do que um faixa preta feminino, por exemplo, bate aquela revolta, e daí eu penso: o que que eu tô fazendo aqui?! Mas e o lado do organizador? Até quando é rentável pagar uma premiação equivalente?

Em uma recente entrevista, Ronda Rousey defendeu-se dizendo que o salário que o UFC a paga é equivalente ao que ela da de mídia. E isso faz sentido, já que hoje em dia, as artes marciais vão muito além de tradição e partem para o lado comercial.

Sendo assim, tomei como referência dois campeonatos que estão sendo visados de uns tempos para cá por conta de sua premiação e fui conversar com seus organizadores. Um deles, a Copa Kings, organizada por Anderson Rossi e o outro, Circuito ABC, organizado por Richard Aidar e Bárbara Mazzutti, proprietários da Agência Target.

Em relação à Copa Kings, o que me chamou atenção além da premiação equivalente aos dois sexos, é que muitas vezes, a inscrição das mulheres têm 50% de desconto, ou seja, mais barato do que a inscrição dos mirins. Por que Anderson optou por isso? “A gente preza pela qualidade do atleta, o vemos como clientes, procuramos fazer o máximo para satisfazer em todos os sentidos” – diz Anderson e ainda completa: “sabemos que o público hoje é proporcionalmente mais homem do que mulher. Percentualmente, terá menos mulheres nos eventos, mas o objetivo principal não foi a ter a mulher no evento e só. Foi que elas venham conhecer o jiu jitsu, ver o evento junto com alguma amiga que vá lutar e acabe se interessando pela arte. E isso automaticamente vai se fomentando. Não foi para ter resultado para o campeonato e sim, para as academias”.

Já ao Circuito ABC, segundo a Bárbara, ela contou que como atleta, acha bastante injusta a premiação, mas como parte da organização de um evento que está ganhando espaço agora e que depende de inscrições para continuar, não é rentável que o pagamento seja igual. “Quando igualamos as premiações, diminui a quantidade de meninas no absoluto, que magia faz isso? Não sei! Ao invés de ser um diferencial, algo atrativo, se torna um problema para nós que temos que pagar mais com um menor número de atletas inscritas” – diz Bárbara. E além disso, o Richard também complementou dizendo que acredita que as mulheres treinam e se esforçam na mesma medida que os homens e que a premiação deveria ser sim igual, mas que precisam de atletas inscritas para isso: “No atual cenário que se encontra o jiu jitsu, tentamos pagar igual, mas muitas vezes acaba não juntando a galera na categoria feminina. Passamos por uma situação num circuito em que não deu a quantidade de azul e roxa, as meninas queriam juntar para pagar premiação. Então as meninas ficam numa situação chata mesmo. Acredito que hoje as mulheres treinam tanto ou até mais que os homens, estão atrás de um patrocínio e as premiações tem sim que ser igualadas, mas precisávamos arranjar um jeito de atrair mais meninas para o campeonato” – disse Richard.

Geralmente, o absoluto exige uma quantidade mínima para que se tenha pagamento de premiação (em todas as categorias). Como exemplo, tomo a publicação que a Jéssica Barbosa, atleta da Cícero Costha e dona da página Jiu Jitsu Para Mulheres fez em seu perfil pessoal falando sobre a baixa procura das meninas em competição. Em uma conversa que ela teve com o dono do Circuito SP, ele havia dito que se tivessem no mínimo quatro meninas para a disputa do absoluto, ele daria o prêmio e, infelizmente, o número não foi atingido. “Se eu contar no meu Facebook, tem mais de quinze atletas competidoras de cada faixa. Aí tem aquelas que querem reclamar, mas não competem. Não é justo criticar o dono do evento. As que não vão competir acabam prejudicando quem compete sempre” – completou Jéssica.

O Anderson contou suas condições de pagamento para ambos os sexos: para ter absoluto, exige quatro atletas. De quatro a seis, não tem premiação. De seis a onze, o atleta recebe 50% do valor. A partir de doze atletas, é pago 100% do valor. Além disso, o organizador disse que repara um grande público interessado em lutas femininas já que geralmente são mais movimentadas, o que não acontecia antigamente e a galera “mudava de canal” quando a mulherada ia lutar.

É uma questão bem difícil de discorrer, principalmente como mulher que entende o quanto é difícil se abdicar das mesmas coisas e ter um prêmio reduzido, porém, creio que seja importante também entendermos que estamos tendo chance de ganhar espaço e que depende muito de nós para que isso aconteça. Muito me incomoda ver que na premiação do Abu Dhabi World Pro, a mulher recebe 20 mil dólares a menos do que o homem (no absoluto faixa preta). Porém, como algumas coisas estão mudando, este ano tivemos um reajuste em relação à premiação de classificação do ranking da IBJJF (de primeiro a terceiro colocado) e tal premiação foi igualada entre os sexos. Infelizmente o fato gerou muitas polêmicas e tivemos que assistir atletas de renome criticando o fato, porém creio que seja uma grande conquista para nós.

Abu Dhabi World Pro (Foto: BJJ Style)

Abu Dhabi World Pro (Foto: BJJ Style)

Não da para entender porque algumas mulheres não participam de campeonatos. Na opinião do Richard, é que talvez elas tenham menos psicológico e um frio na barriga maior. “Acho que o homem é um pouco mais preparado psicologicamente, porque tem aquela questão de ego, que ele quer mostrar que é mais forte que o outro” – diz Richard.

Anderson defende o ponto em que a diferença de premiação tende a espantar as pessoas do evento e que não faz sentido pagar menos se a inscrição é no mesmo valor. “Justificaria se naquele momento que fizemos desconto, optar por pagar o prêmio menor, mas mantivemos para trazer as mulheres para a Copa Kings e também para as academias” – completa.

Ainda temos um longo caminho a trilhar e creio que já estejamos “movendo nossos pauzinhos” para mudar essa concepção de que jiu jitsu é esporte para homem. Que a gente não desista e que os organizadores confiem em nosso potencial cada vez mais. Nós merecemos premiações iguais 🙂

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