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Toda academia de jiu jitsu precisa de um Carrasco

Traduzido de Jiu Jitsu Times, artigo original de Jerry Tsui, aqui (em inglês).

Você já teve algum convidado em sua academia que decidiu pegar um pouco mais pesado durante os rolas com parceiros menores ou menos graduados? Sua academia já foi invadida? Já se perguntou porque não há valentões de tatame na sua academia? Ame-os ou odeie-os, toda academia precisa de um carrasco pra regular e fazer valer as leis do tatame. O termo carrasco pode soar extremo e violento, mas no fim das contas, o carrasco é a pessoa que vai nos manter protegidos e garantir um ambiente saudável de treinamento na academia.

Algumas semanas atrás um cara de outro estado, no meio-oeste americano apareceu para um treino livre com pouca gente na nossa academia. Um faixa roxa, duro, atlético, jovem e bem nutrido que parecia ter comido uma boa porção de filés e passado bastante tempo tanto nos tatames quanto levantando peso. Ele se mostrou arrogante e cheio de si ao falar que o instrutor de jiu jitsu na sua área não era muito forte e ele pensava em se mudar pra conseguir melhores treinos e competições.

Nosso treino livre, naquela noite, tinha apenas oito pessoas e elas eram uma miríade de faixas brancas e azuis, variando de pesos galo a leve.

Assim que pisou no tatame, esse visitante mirou a sala toda e começou a usar suas vantagens de peso, técnica, velocidade e atleticidade pra amassar os parceiros de treino menos experientes e menores. Ele continuou, caçando finalizações duras e rápidas nos parceiros mais fracos, buscando afirmar sua posição de macho alfa, dominante no tatame. Em um momento ele chegou a levantar seu parceiro de treino, de uns 60kg, no ar, e parecia estar pronto pra um bate-estaca, antes que o instrutor que supervisionava o treino interviesse.

Infelizmente, não havia naquela noite um carrasco presente pra retornar as coisas à ordem. Se um dos nossos faixas marrom ou preta, maiores e mais técnicos, estivessem no tatame, ele certamente teria chamado esse visitante para o próximo rola.

Nesse rola, o carrasco então iria finalizar e amassar o visitante, num aviso não verbal de que você não pode chegar na casa de alguém e apavorar nossos alunos menos graduados ou menores, sem que seu ego seja checado.

Parece exagero? Como o Cel. Nathan Jesup disse em Questão de Honra (1992, IMDb):

“Filho, vivemos num mundo que tem paredes, e essas paredes devem ser guardadas por homens armados. Quem vai fazer isso? Você? Você, tenente Weinburg? Eu tenho uma responsabilidade muito maior do que você pode imaginar. Você chora por Santiago e culpa os Marines. Você se dá ao luxo. Você se dá ao luxo de não saber o que eu sei. Que a morte do Santiago, ainda que trágica, provavelmente salvou vidas. Você não quer a verdade porque no fundo, em lugares que você não fala sobre nas festas, você me quer defendendo aquela parede, você precisa de mim defendendo aquela parede. Nós usamos palavras como honra, códigos, lealdade. Usamos essa palavra como a espinha de uma vida dedicada a defender alguma coisa. Você usa elas como remate. Eu não tenho nem o tempo nem a intenção de me explicar pra um homem que deita e levanta dos lençois de liberdade que eu forneço, e em seguida questiona as maneiras com que forneço essa liberdade. Eu preferia que vocÊ apenas dissesse obrigado e seguisse seu caminho, ou então eu sugiro que pegue uma arma e fique de guarda. De qualquer forma, não dou a mínima para o que você pensa ter direito.”

Se você já se perguntou porque sua escola não tem daqueles valentões de tatame ou parceiros de treino que não ligam pra saúde uns dos outros, você pode agradecer ao carrasco. Ele faz o trabalho sujo, pra poder criar um ambiente sadio, divertido e leve, livre de valentões e grandes egos.

Na maioria dos casos esse carrasco vai ser o cara mais amigável e mais dedicado no tatame, com um coração de ouro. Não é um papel para o qual o professor ou dono da escola designe alguém. O mais provável é que o carrasco assuma essa posição organicamente, sem que ninguém o eleja.

De vez em quando o professor vai sinalizar ao carrasco que é hora de regular alguém, mas na maioria dos casos ele mesmo vai perceber algum “distúrbio na força” e provavelmente já partirá para a ação.

E na sua escola? Tem algum carrasco no tatame, pra lidar com os valentões e visitantes grosseiros?

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