Home / Competições / Brasil / Por que eu não quero ver o Jiu Jitsu nas Olimpíadas (ou “Como as Olimpíadas estragam os esportes de combate”)

Por que eu não quero ver o Jiu Jitsu nas Olimpíadas (ou “Como as Olimpíadas estragam os esportes de combate”)

Olympic_rings_with_transparent_rims.svg

Estamos na primeira semana das Olimpíadas 2016, que estão sendo realizadas no Brasil, especificamente na cidade do Rio de Janeiro, o berço do Jiu Jitsu mundial. Com essa mistura, um assunto que volta e meia é discutido voltou à moda com mais força do que nunca: a inclusão do Jiu Jitsu como modalidade olímpica.

Afinal, durante as Olimpíadas os olhos do mundo se voltam para o esporte. Atletas de modalidades que usualmente residem no anonimato, obtêm a chance de brilhar sob os holofotes e câmeras de TV em alta definição e serem alçados em minutos de ilustres desconhecidos a ídolos nacionais ou até mundiais. Faz todo sentido querer que um pouco dessa atenção seja direcionada ao esporte que amamos. Mas acredito que é aí que os benefícios iniciam e também se encerram (ignorando o “egoísmo” de saber que o Brasil dominaria o quadro de medalhas).

Muitos textos foram escritos recentemente apontando motivos pelo qual o Jiu Jitsu não pode, por enquanto, ser incluído nas Olimpíadas, dentre os quais destacamos o da BJJ Girls Mag e o de Mayara Munhós para a ESPNW. Tais motivos passam pela ausência de uma entidade global que organize o esporte, bem como pelo caráter “amarrado” do Jiu Jitsu aos olhos leigos, que não se interessam por assistir lutas de 10 minutos sem entender bem as nuances do esporte como as disputas por pegada, distribuição de peso, etc.

Pessoalmente, eu adicionaria à lista de razões para o Jiu Jitsu ainda não ter condições de ser Olímpico o fato de o esporte ainda ser quase que exclusivamente brasileiro se analisarmos seus vencedores. Em 20 anos de Mundial IBJJF, 200 medalhas de ouro foram distribuídas na faixa preta masculina, mas apenas 3 para não brasileiros (João Roque em 1997, BJ Penn em 2000 e Rafael Lovato em 2007).

Mas o presente texto não tem por escopo chover no molhado e analisar os fatos que precisam mudar para vermos nosso esporte no evento dos cinco arcos entrelaçados. A ideia aqui é demonstrar as razões pelas quais eu acredito que a inclusão do Jiu Jitsu como modalidade olímpica seria, no geral, prejudicial ao esporte!

Então vamos lá:

helio gracie

As prováveis mudanças de regra mutilariam o Jiu Jitsu

O Jiu Jitsu Brasileiro (ou “Gracie Jiu Jitsu”, ou atualmente só “Jiu Jitsu”) nasceu como uma arte marcial voltada para o combate. Fez seu nome no Brasil mediante lutas contra diversas outras modalidades, desafios públicos, invasões de academia (e outras coisas das quais podemos não ter muito orgulho, mas que fazem parte de nossa história), e internacionalmente com o advento do UFC e as vitórias do lendário Royce Gracie. Ou seja, o Jiu Jitsu trilhou seu caminho com sangue e suor, com a família Gracie provando para todos que ousaram duvidar da eficiência da arte.

A evolução natural trouxe a tão sonhada profissionalização ao Jiu Jitsu, que se ramificou em decorrência. Hoje você encontra academias focadas no Jiu Jitsu voltado ao esporte (a maioria delas), à defesa pessoal, e algumas que tentam conciliar os dois aspectos. E com o crescimento cada vez maior do aspecto esportivo, é natural que as técnicas evoluam nesta mesma direção. Movimentações como o berimbolo, que não fariam tanto sentido em uma situação de briga ou MMA, passam a ser de conhecimento obrigatório para quem pretende se sobressair nas competições. Por outro lado, algumas técnicas foram proibidas pelo seu alto risco de lesão, como as chaves de calcanhar e “bate-estaca”.

Muitos hoje já criticam o caminho que o esporte tomou, pois em tese, estaria se afastando da marcialidade e caminhando em direção a uma mera disputa de pontos e vantagens. Agora imaginem o que aconteceria caso o Jiu Jitsu fosse incluído nas Olimpíadas!

Podemos tomar o exemplo de nossa arte irmã, o Judo. Nos últimos anos, vimos algumas mudanças drásticas, com intuito de tornar a arte mais interessante aos espectadores, e não considerando a evolução do esporte: as catadas de perna (como a nossa famosa “Baiana”) passaram a ser proibidas, algumas pegadas passaram a ser proibidas (ou ter tempo máximo permitido), as formas de estourar pegadas foram limitadas (estourar a pegada do oponente usando as duas mãos, por exemplo), e  o tempo para a luta se desenvolver no solo (“Newaza”) foi bastante reduzido (orientação que foi revertida pela IJF há pouco tempo). Além disso, diversas finalizações são proibidas, como as chaves de pé, calcanhar, joelho, ombro (omoplatas, kimuras, americanas, etc), mão-de-vaca,

Caminho não muito diferente foi seguido pelo Taekwondo. Assistindo às lutas olímpicas dessa modalidade, percebe-se que os chutes dos competidores focam muito mais em conseguir tocar o adversário do que em causar um efetivo impacto. A guarda com as mãos deixou de existir como forma de bloquear os golpes recebidos.

Por mais apaixonados que sejamos pelo Jiu Jitsu, uma coisa precisamos aceitar: boa parte das lutas de BJJ são chatas e amarradas atualmente, mesmo para os fãs. Nós que praticamos, conseguimos enxergar as nuances e belezas da arte, a disputa pelas pegadas, a movimentação dos quadris, a forma de distribuir o peso, as brigas pelas esgrimas e ganchos. No entanto, para os 99% de leigos que passariam a assistir o Jiu Jitsu nas Olimpíadas, as lutas seriam 10 minutos de pouca movimentação. Tal público está acostumado com as quedas de grande amplitude e movimentação mais intensa do Judo e do Wrestling (e ainda assim, a maioria julga tais esportes “chatos”).

Hélio Gracie passou a usar uma faixa azul como protesto contra a banalização da faixa preta

Hélio Gracie passou a usar uma faixa azul como protesto contra a banalização da faixa preta

Qual seria a saída natural? Mudar as regras. Punir falta de combatividade com mais frequência, proibir chamadas duplas na guarda, instruir um tempo máximo na meia-guarda, reduzir o tempo de luta de 10 para 4 ou 5 minutos e outras mudanças que poderiam afetar profundamente nosso esporte.

O verdadeiro Jiu Jitsu está nos detalhes, no “Jiu Jitsu Invisível” de Rickson Gracie, na simplicidade perfeita de Roger Gracie. Temo que “acelerar” um esporte que tem como alicerce a minúcia, os pormenores poderia resultar em uma crise técnica em detrimento do atleticismo do lutador.

 

O fato de um esporte ser Olímpico não necessariamente muda a vida dos atletas

Uma das maiores críticas dos atletas de Jiu Jitsu é a falta de apoio. Patrocínios são tão raros quanto torneios com boas premiações em dinheiro. Muitos acreditam que ter o Jiu Jitsu nas Olimpíadas mudariam esse cenário. Mas eu não acredito que as coisas seriam assim tão simples.

A delegação brasileira nesta Olimpíada conta com quase 500 atletas, e sabemos que muitos deles passam pelos mesmos problemas financeiros que os atletas de Jiu Jitsu. Por exemplo, nenhum dos 10 boxeadores que disputaram o Pan (incluindo os medalhistas Esquiva Falcão e Yamagushi Falcão) possuíam patrocínios. William Muinhos, esperança de medalhas no Pentathlo, mora com a avó e sobrevive do Bolsa Atleta. Até o campeão Olímpico em 2012 Arthur Zanetti ameaçou competir por outro país em 2016, cansado da falta de apoio ao esporte no Brasil.

Mais um exemplo? Ronda Rousey contou em sua biografia que morou em seu carro durante algum tempo, logo após disputar as Olimpíadas de 2008.

ronda-rousey-accord

 

Possíveis Alternativas

Como eu deixei bem claro, como praticante e apaixonado pelo Jiu Jitsu, eu sou absolutamente contra a inclusão da arte como esporte olímpico. Todavia, acredito que há outras opções que poderiam agradar a todos.

Creio que a criação de uma modalidade de “Submission Grappling”,  algo nos moldes similares ao ADCC ou NAGA, com regras mais abrangentes seria uma saída bastante democrática. Permitiria não apenas que os praticantes de Jiu Jitsu disputassem as Olimpíadas, mas também de outras modalidades de Grappling, como o Sambo, Catch-as-Catch-Can, além das já inclusas Judo e Wrestling, dentre outras.

Com os moldes corretos e regras mais simples, poderia se tornar uma modalidade interessante para o público geral, e criar combates interessante como entre um campeão do Jiu Jitsu contra um campeão do Sambo. Por outro lado, possivelmente com o decorrer do tempo o “Submission Grappling” acabaria por se distanciar das outras modalidades de Grappling e virar uma espécie própria, à qual os atletas acabariam por precisar de dedicação exclusiva para competir em alto nível. Algo parecido com o que aconteceu com o MMA nos últimos 10 anos.

No que se refere à profissionalização do Jiu Jitsu, creio que felizmente estamos no caminho certo, e não precisamos das Olimpíadas. Torneios como o Mundial Pro de Abu Dhabi e o ADCC há anos pagam grandes premiações em dinheiro aos vencedores, a IBJJF passou recentemente também a organizar torneios com premiações pecuniárias, e diversas organizações menores já existem promovendo lutas casadas e torneios particulares, como a Copa Pódio, Eddie Bravo Invitational e Metamoris.

Desta forma, vejo que o Jiu Jitsu está bem direcionado para andar com as próprias pernas como esporte profissional e prover seus atletas com boas condições financeiras em breve, como já acontece há muitos anos com o Surfe e o Skate.

E você, acha que a inclusão do Jiu Jitsu nas Olimpíadas seria boa ou ruim para o Esporte?

 

  • Faz sentido. Concordo com a idéia apresentada no post.
    Parabéns.

  • Luciano Augusto

    Em trecho que vc enaltecer a luta de 10 minutos, o próprio Hélio Gracie já falou que é muito tempo de luta, que quando ele lutava não leva menos de 5 minutos, acho que tbm deixaria a luta mais dinâmica fazendo o atleta que está perdendo buscar mais a luta e colocando mais volume, já nas questões de dinheiro concordo porém uma bolsa atleta de 1500 reais pra quem treina e melhor que nada, que é o que ganhamos hj e seria uma divulgação maio para o esporte atraindo mais adeptos

  • Marcel Marcus

    Irretocável. Parabéns pelo excelente texto, Bruno!

  • não concordo e acredito que o Jiu-Jítsu deveria ser um esporte olímpico, pois o objetivo inicial dos jogos olímpicos é a promoção da paz e a amizade entre os povos, ou seja, qualquer esporte que faça parte dela já é um símbolo disso.

    Na verdade creio que é uma tendência ele se tornar olímpico, com o tempo

    De fato existem adaptações nos esportes, em especial nos esportes marciais, para este façam parte das Olimpíadas, o que usamos como metodologia de graduação é um exemplo dessa adaptação, pois Mestre Jigoro Kano criou um sistema de cores para graduação do Judô, para que fosse entendível pelo ocidental, já visando levar o Judô paras as Olimpíadas, e esse sistema foi adotado por quase todas as artes marciais (inclusive o nosso Jiu-Jítsu).

    As alterações no Judô que o autor cita não foram para “tornar a arte mais interessante aos espectadores”, mas sim para, oficialmente, deixar o Judô mais competitivo e trazer de volta a essência das técnicas que estavam se perdendo no uso exclusivo da força (claro que essa justificativa é muito questionável, mas é a oficial heheheh — a “extraoficial” era porque os japonês estavam perdendo muito mesmo :v ), não tinha nada a ver com os espectadores, de qualquer modo…

    E sobre os ganhos monetários… bem, não influenciaria em nada mesmo, pois nenhum esporte olímpico garante visibilidade aos seus atletas, nem aos de ouro, principalmente em países como o nosso, onde o esporte é o final de qualquer fila de prioridade.

    Mas com certeza o maior ganho ao esporte é a organização que dá ao esporte, pois se vermos o Judô, como exemplo, observaremos que não existe nenhuma outra federação internacional, além da IJF, só uma confederação nacional por país e só uma federação estadual em cada estado, o que faz com que os atletas, bem ou mal, tenham só uma referência de certo e errado na sua modalidade, até menos complicado para se cobrar algo de seus dirigentes.

    A IJF (International Judo Federation), pela Kodokan, diz algo como “só será Judô o que foi criado pelo Mestre Jigoro Kano” e com essa organização que o Jiu-Jitsu teria que ter para se transformar em Olímpico, certamente, teríamos uma homogeneidade do que é BJJ, nas regras, pois teríamos uma só federação internacional, ou pelo menos uma organização comum entre elas (como acontece com o Boxe, se não me engano, onde possui mais de uma federação, mas homogeneízam o “melhor” entre elas em um torneiro) e, principalmente, sua origem, que apesar de ser muito recente é muito discutida e controversa 😀

    E sobre a hegemonia dos brasileiros no esporte, bah, besteira pensar assim, é só pensar no Judô, Taekwondo, Greco-Romana (Luta Olímpica) e por aí vai, quanto mais países (muito mais pessoas) praticam o esporte, mais difícil será para o país “sede” do esporte manter a sua “coroa”, quem diga o futebol, onde o “país do futebol” só tá levando bomba nos últimos anos kkkkkkkkkkkkkk, mas isso é algo natural e faz porte do esporte que se transforma em global

    Sempre fico muito confuso, quando meu sensei vai explicando as regras e quando já entendo um pouco, daí vem um amigo e explica o que é e o que não é em outra federação e tudo fica confuso de novo 😀 😀

  • BRUNO

    O argumento de que os leigos não vão entender não vale. Eu fico perdido ao assistir o Taekwondo, Esgrima, Hipismo. Não entendo as regras e são pouco atrativos pra mim, particularmente. Mas isso não tira o brilho do esporte ou há desmerecimento na participação olimpica

  • Bruno Portela

    Discordo do texto, em particularidade quanto ao que falam do Judô. As regras foram feitas justamente para que a luta não fique amarrada e os combates sejam intensos para que cada judoísta busque a vitória. As catadas não foram tiradas ontem e sim dois cilos olímpicos antes da Rio2016. Chaves fora do cotovelo no meu conhecimento nunca valeram. Técnicas proibidas existem, porém não são aplicadas em competições e sim para conhecimento e para exames, afinal a competição é apenas uma parte do nosso esporte. Quanto ao Newaza a regra é bastante clara neste aspecto e são muitas, porque se não houvessem regras não seria luta e sim briga, poderia ficar debatendo cada uma aqui, mas não acho que isso seja necessário.. Em relação ao jiu-jitsu penso que ainda está com muitas federações, o que dificulta neste processo para se tornar olímpico.

    Bruno Portela – 1Kyo

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com