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Pequenos tatames, grandes negócios

by Rodrigo ‘Muleta’ Reis – Faixa preta 2º grau

muleta

Não existem estatíscas ou estudos a respeito, mas creio que aproximadamente 80 a 85% das equipes de jiu jitsu do Brasil possam ser definidas como pequenas equipes.
Usando como escala a quantidade de alunos fixos eu definiria as equipes como: master, grandes, médias e pequenas .
As masters seriam as matrizes de grandes equipes, todas com grande números de alunos (acima de 200 lutadores) que todos nós conhecemos: Gracie Barra, Alliance, Nova União etc…
Aí vem as grandes, que seriam filiais das masters, quase sempre em cidades grandes e/ou muito desenvolvidas (para padrões brasileiros). Às vezes tendo a frente um lutador e/ou professor de renome nacional com alunos que variam entre 100 a 150.
Na sequencia as médias com alunos na casa dos 50 a 100, seguidos pelas pequenas, em que o número de praticantes fiquem em até 50 bravos guerreiros.
E são nessas pequenas que, imagino, giraram algo em torno de 80 a 85% do número de praticantes da arte suave aqui em nosso Brasil. Temos um nicho (no qual me enquadro) que não acha padrões, referências, dicas ou auxílio que permitam incrementar, administrar, repaginar suas idéias e com isso aumentar o número de praticantes e quem sabe subir de escala para o padrão médio.

Todas as dicas dadas em revistas especializadas parecem serem dirigidas as “classes mais altas” no mundo das equipes de jiu-jitsu. As pequenas equipes tem um bloqueio invisível que dificulta o aumento do número de praticantes: uma falta de didática do professor responsável, falta de planejamento, falta de feeling para ministrar aulas, desorganização da equipe em geral, falta de marketing, má localização da escola, infra-estrutura precária, cidades com tradição em esportes quase nulas e por aí vai.
Então pensando nessas pequenas formiguinhas que carregam um grande peso do ju jitsu em suas costas, que criei (nesse mundo nada se cria, tudo se copia ou se transforma) dez regras básicas para ajudar o pequeno professor igual a mim, a administrar, incrementar e quem sabe aumentar o número de alunos de sua escola.
Todos os conceitos abaixo, foram adquiridos com a prática de quase 20 anos de jiu-jitsu e uns 15 dando aulas, sendo que comecei a lecionar na faixa-azul:

1) Crie uma logomarca bonita
Se você for artista ou designer melhor ainda. Se não for, evite confiar no seu ”extremo bom gosto”, pois como designer gráfico tenho visto logomarcas que dão até medo em assombração. Lembre-se que o patch que estará nas costas do seu aluno será um dos seus cartões de visita.

2) Não tenha vergonha de imitar os ”grandes”.
Sempre, absolutamente sempre, algo que aparentemente é novo foi na verdade imitado ou copiado de um conceito já existente e isso também é uma realidade no jiu-jitsu. A padronização do uniforme foi implementada pela Gracie Barra e deu certo, copie. O horário de 12h é tradicionalmente para competidores, copie. Uma equipe de sua cidade fez propaganda em panfletos na rua e teve um bom retorno, copie. Não se prenda aos seus conceitos de aula, de administração e nem de marketing, afinal os Mendes e os Myaos ”criaram” o berimbolo e você copia.

3) Invista na estrutura de sua academia.
Por mais simples e humilde que seja, com um pouco de dinheiro, muita ajuda e criatividade você pode transformar uma academia simples (como a minha) em um lugar organizado, com ambiente bacana e onde os novos alunos teram muito gosto em ir e levar seus amigos para conhecer. Pode ter certeza que a ajuda para essas mudanças está aí dentro. Um aluno pintor para dar uma geral nas paredes, um aluno eletricista para arrumar aquela luz que insiste em não acender e o melhor, eles sempre estão dispostos em ajudar.

4) Parte do seu lucro é de sua academia
Estabeleça uma pequena cota do seu lucro, algo em torno de 20% para retornar para sua academia. Invista em lixeiras, dispensers de sabonete líquido, papel toalha, uma nova lona para o tatame, um kimono para aula experimental, etc.

5) De quanto é seu pagamento?
Defina com qual porcentagem você irá ficar após fechar o mês em sua escola. Eu opinaria por 30%, sendo que os 50% restantes devem ser depositados em uma conta separada para uma emergência, como naquele mês de frio ou chuva que boa parte dos alunos ficam em casa, assim como fim de ano, quando o movimento diminui mais ainda. Sempre é bom ter uma pequena reserva para não passar apertado como aluguel.

6) NÃO dê bolsas.
PERAÍ. Que conversa é essa?? Quem esse cara pensa que é??? Talvez a opinião mais polêmica seja essa, pois sempre tem aquele moleque talentoso que não tem condições de pagar a mensalidade (que quase sempre gira em torno de R$50,00 a R$70,00 mensais) e precisa da bolsa para treinar, virar campeão e mudar de vida.
Nas minhas experiências, nenhum dos meus bolsistas (sim eram fenômenos como lutadores e precisavam desse apoio financeiro) deram o devido valor ao que receberam. Durante um tempo, o bolsista até faz por merecer, mas depois tudo vai desandando. Acho muito melhor, você dar uma função para o ”bolsista” em troca da mensalidade.
Quem sabe varrer a academia antes das aulas, lavar os banheiros antes e após as aulas e passar um pano no tatame. Se ele quiser mesmo treinar não irá se importar com esses serviços que ”no Brasil” são sinônimo de vergonha. Só aqui.

7) Plano de aula
Sente todo fim de semana na mesa e traçe um plano de aula para a semana que virá.
Você passará a impressão de um professor responsável e que se preocupa com os ensinamentos para seus alunos, afinal nada pior que chegar na hora da aula e tentar ficar lembrando o que passar. Acaba que você mostrará uma passagem de guarda e no próximo movimento ensina uma defesa pessoal, nada a ver.

8) Você nunca poderá causar uma segunda boa impressão
A primeira impressão que você passará a um ”talvez aluno” é a que ficará, por isso nada de andar todo “mulambento”, falando aquele milhão de gírias e com a cara de quem quer comer o fígado do primeiro que lhe perguntar as horas. Tenha sempre dois ou mais kimonos, com o paletó e calça da mesma cor, em bom estado de uso e com os patches de sua equipe, afinal, na sua pequena equipe, você é a referência. Receba a todos com um sorriso, sem marra nenhuma e trate a todos por igual, seja ele magrelo, gordinho ou só com uma perna, afinal, o jiu jitsu é para todos (leia item2, né…. Gracie Barra)

9) Casca fina
Já diria meu mestre, o casca fina que é a base de toda academia. Não invista a maior parte do seu tempo durante as aulas naquele aluno casca grossa, campeão estadual e ”futuro” campeão mundial. Ele em sua equipe é um, dois as vezes três e geralmente ”bolsistas”. Os outros seus 20 alunos casca finas que ajudam a manter toda essa estrutura que o ”casca-grossa” precisa para treinar e ter os resultados que tanto orgulho te dão. Como professor sei que não é fácil, deixar aquele fenômeno um pouco de lado, mas no fim do mês, coloque tudo na ponta do lápi$$$$…Você entenderá do que estou falando.

10) Propaganda, a alma do negócio
Já criou o facebook de sua equipe?? E o site??? Só lembrando, que existem provedores de site grátis, tá? Nem precisa gastar com isso. Em meus 15 anos como professor, nunca alguém chegou em minha equipe e falou que veio porque aqui tem um campeão brasileiro ou mundial. Essa realidade é de outro nível de academia (master e grande).
O nosso forte são as redes sociais, os sites e principalmente o fortíssimo boca a boca, mas nada que uma vez ou outra uma panfletagem nas saídas das escolas não ajudem um pouco.

Como a toda regra a excessão, essas dicas acumulei a longo dos anos e somente gostaria de dividir com meus irmãos de ”pequenas academias”, pois assim nos veremos aqui representados ao lado dos grandes, e quem sabe um dia, subiremos um degrau rumo ao lugar mais alto na ”pirâmide alimentar do jiu jitsu”.

Rodrigo ‘Muleta’ Reis – Faixa preta 2º grau
Formado pelo mestre Vinícius ‘Draculino’ Magalhães
Praticante da arte suave há 20 anos
Professor há 15 anos (professor é quem ensina, independente da graduação)
Líder da equipe RMT- Sete Lagoas (Pequena, viu.)

  • Pedro Mau Mau

    Belas palavras Rodrigo.
    O Brasil como país de origem da Família Gracie tinha que propor facilidades para a propagação, estrutura e desenvolvimento do Jiu Jitsu.
    Top! Ajudar o próximo sempre ajuda a se mesmo a crescer.
    Bela matéria.

    Abraço!

  • Pedro Mau Mau

    *Família Gracie

  • Fui aluno do mestre Muleta, e posso testificar tudo que foi escrito. Dono de uma metodologia única, capaz de fazer de qualquer um um grande atleta. Mas realmente se o mestre além de mestre não tiver uma cabeça de administrador(que não precisa ser necessariamente a dele), sua academia não prosperara.

  • Cleiton Anderson

    Excelente artigo.
    Relata com sucesso os obstáculos correntes daqueles “pequenos” que pleiteiam cada vez mais o reconhecimento e enobrecimento do nosso esporte.
    Parabéns ao Mestre Rodrigo Muleta pelo êxito nos princípios pautados.
    Oss!!

  • marcel

    Sensacional o texto, parabéns!

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