Home / Colunas / O que o UFC deve fazer para lidar com funcionários insatisfeitos?

O que o UFC deve fazer para lidar com funcionários insatisfeitos?

Foto: Divulgação / acervo da internet

Foto: Divulgação / acervo da internet

Phil Davis, Ben Henderson e Matt Mitrione, o que esses três nomes tem em comum? Os três eram contratados pelo UFC, ranqueados em seus pesos, porém decidiram por escolha própria sair da organização e assinar com o principal concorrente: Bellator. Isso é só o início de um processo que pode vir a se tornar irreversível, caso os dirigentes do UFC continuem praticando terríveis falhas de gestão de negócios.

Tudo começou com a parceria com a Reebok, acordo que foi bastante lucrativo para a companhia, porém se mostrou um baita prejuízo para os atletas, que passaram a não poder ter mais seus próprios patrocínios, sendo então obrigados a usar exclusivamente as roupas da Reebok e aceitar o valor pago pela marca como patrocínio, valor esse muito inferior ao que estavam acostumados a receber de seus antigos patrocinadores. Muitos atletas e funcionários reclamaram abertamente dessa parceria, dentre eles os brasileiros Vitor Belfort, José Aldo e Erick Silva. Outro funcionário que também reclamou foi o lendário cutman Stitch Duran, que foi sumariamente demitido pelo UFC após a declaração, e que gerou diversas críticas do público pela forma que a organização lidou com a situação. Recentemente, Stitch também foi contratado pelo Bellator.

É uma situação complicada, todos os atletas estão insatisfeitos, mas poucos tem coragem de falar, pois correm o risco de serem cortados, e nem todos teriam oportunidades de recomeçar em organizações grandes como o Bellator e serem valorizados pelos seus trabalhos. Por isso a maioria não fala nada, mas ficam torcendo para que a situação mude de cenário o mais rápido possível, para que possam voltar a ter seus patrocínios pessoais e seus rendimentos aumentarem consideravelmente. Um camp para uma luta é algo caro, o atleta tem que pagar do próprio bolso, e quando se machucam não têm nenhuma forma de repor esse investimento. Geralmente os patrocínios pessoais ajudavam muito os atletas nos gastos com o camp, porém agora eles não têm mais esse apoio.

Essa semana, Matt Mitrione revelou uma declaração de um dos mandatários do UFC, Lorenzo Fertitta, que disse que “a produção e show são o que a empresa está vendendo, nosso principal produto”. Essa declaração mostra que o UFC está começando a apresentar falhas de gestão que podem se tornar um grande problema para a empresa num futuro próximo. As estrelas são os atletas, ponto. O que evoluiu no esporte foram os próprios lutadores, o nível técnico cresceu absurdamente nos últimos anos, os atletas estão cada vez mais completos e a competição está em altíssimo nível. Já a produção não evoluiu nada, pelo contrário, se formos comparar as produções dos eventos do PRIDE FC há mais de uma década, podemos dizer que a produção do UFC é bem básica e sem sal, deixando ainda mais claro que quem faz o show são os lutadores. Se o Lorenzo Fertitta acha que a produção é seu principal produto, então ele está fazendo tudo errado. Recentemente o próprio Mitrione passou por uma situação curiosa. Foi obrigado pela Reebok a retirar seus tênis Air Jordan para dar uma entrevista para o UFC, e teve que ficar completamente descalço.

Outro lutador que se manifestou sobre a diferença de tratamento aos atletas entre o UFC e o Bellator foi Benson Henderson, ex-campeão dos pesos-leves do Ultimate e recém-contratado pelo Bellator. Essa semana ele deu a seguinte declaração: “A grande diferença entre o contrato com o Bellator e o contrato com o UFC é que o Bellator estava disposto a ser criativo ao invés de impor uma forma de trabalho. No UFC as coisas funcionam de um jeito: ‘Nós fazemos isso assim e nada vai mudar’. O Bellator, por outro lado, tentou pensar em hipóteses e alternativas, como testar algo aqui, conceder outra coisa ali. Eles entenderam que não precisam estruturar o contrato da mesma forma que todos os outros torneios fazem. Essa foi a grande diferença”. Resumindo, ele deixou claro que o Bellator se preocupa verdadeiramente com os atletas, enquanto o UFC mostrou não estar nem aí para os desejos de seus funcionários.

Os dirigentes do UFC sempre foram mestres dos negócios. Exemplo disso é que comparam a empresa prestes a falência por 2 milhões de dólares, e conseguiram transformar numa empresa que vale 2 bilhões de dólares. Um dos principais fatores para eles terem alcançado tamanho sucesso foi que eles sabiam valorizar as principais estrelas da organização, que eram os campeões. Chuck Liddell, Tito Ortiz, Randy Couture, Matt Hughes, BJ Penn, esses caras eram as estrelas do evento, e fizeram por merecer, já que primeiro se tornaram campeões e só depois se tornaram estrelas. Hoje em dia, as coisas estão diferentes. Estão “preparando” possíveis futuros campeões para se tornarem estrelas antes mesmo de conquistarem um cinturão. Alguns exemplos são Conor McGregor, Paige VanZant e Sage Northcut, três atletas que já chegaram no UFC cheios de moral, ganhando salários maiores do que a maioria dos outros atletas e se tornaram estrelas rapidamente. Em alguns casos, esse tipo de estratégia dá certo, como o próprio McGregor que veio a se tornar campeão e quando isso aconteceu ele já era uma estrela consagrada, justamente devido à estratégia do UFC de prepara-lo para esse momento. Porém em casos como da VanZant e do Northcut, eles se mostraram lutadores limitados e não justificaram a atenção especial que vem recebendo dos patrões. E isso gera desconforto por parte de outros atletas. Aljarmain Sterling, lutador peso-galo e um dos maiores prospects atualmente na organização, mostrou insatisfação pelo fato de receber uma bolsa menor do que do Sage Northcut, e chegou a negociar com outras organizações antes de renovar seu contrato com o UFC. Outro lutador que chegou a negociar com o Bellator foi o Alistair Overeem, estrela holandesa dos pesos-pesados. Por muito pouco esses dois não entraram na mesma lista de Davis, Mitrione e Henderson. E eu não tenho dúvida que teremos mais situações parecidas acontecendo, justamente devido ao tiro no próprio pé que o UFC deu ao fazer a parceria com a Reebok com condições desfavoráveis aos funcionários.

Os dirigentes do UFC pensaram apenas nos próprios bolsos quando fecharam esse acordo, e deixaram de lado os atletas. Lorenzo Ferttita deixou isso ainda mais claro ao declarar que os lutadores não são o principal produto da empresa. Então os mesmos dirigentes que fizeram jogadas de mestre e fizeram a empresa crescer absurdamente, hoje estão praticando falhas de gestão, e essas falhas estão proporcionando um crescimento do seu maior concorrente. Em qualquer empresa do mundo, se um dirigente tomasse uma ação que favorecesse a concorrência, esse dirigente seria chamado para uma reunião e seria obrigado a fazer um plano de ação para reverter esse quadro ou até mesmo seria demitido. Mas esses erros estão sendo cometidos pelos próprios acionistas da empresa, o que é ainda mais preocupante. Eles estão pensando a curto prazo e deixando de lado o médio e longo prazo, o que é uma falha terrível. A única explicação plausível para uma mudança tão brusca na forma de gerenciar o negócio, é que eles podem estar planejando vender o UFC em breve. Dessa forma seria mais coerente pensar que eles estão enchendo os próprios bolsos com bilhões de dólares para depois vender uma empresa em declínio e passar a “bucha” para outro grupo de empreendedores. Mas se não for isso que eles têm em mente, com certeza eles terão problemas num futuro próximo, pois cada vez mais outros atletas irão deixar a organização devido a insatisfação com a atual situação, e quanto mais atletas de calibre forem para o Bellator, mais a organização irá crescer até o ponto que irão começar a bater de frente com o UFC.

Para que essa situação não se torne irreversível, o UFC vai ter que tomar uma decisão rápida. O primeiro ponto é lidar com os funcionários insatisfeitos. O ideal seria convidar alguns lutadores contratados que sejam formadores de opinião e que poderão ser os representantes de todos os atletas da organização, para uma reunião onde ambas as partes apresentariam seus argumentos, e que pudessem entrar num consenso. A parceria com a Reebok é boa para o UFC e os dirigentes não querem abandonar o acordo? Ok, então que repassem para os atletas valores relativos aos que eles estariam recebendo de outros patrocinadores. Casos como Sage Northcut e Paige VanZant deixam os demais atletas incomodados? Que criem então um sistema de bolsas referentes ao tempo de organização e posição no ranking. No caso os campeões seriam os que (merecidamente) ganhariam mais. Seguidos dos atletas ranqueados. E os demais atletas receberiam de acordo com o tempo que estão contratados pela organização, uma forma de valorizar os funcionários mais antigos, e também de motivar os mais novos a buscarem evoluir dentro da organização, com a garantia que irão receber mais no futuro, dessa forma não irão buscar outras organizações. Esse é o primeiro passo, valorizar os atletas como principal produto da empresa, e acabar com a insatisfação de seus funcionários. Talvez (provavelmente) num primeiro momento, os dirigentes ganhem menos dinheiro do que vem ganhando, já que estarão dividindo com os atletas os valores referentes ao patrocínio da Reebok. Porém mesmo diminuindo os lucros no curto prazo, essa atitude iria aumentar consideravelmente as possibilidades do UFC continuar sendo a maior organização do esporte no longo prazo, e quando se fala de negócios, é muito importante pensar no futuro.

O UFC vinha crescendo num ótimo ritmo, aumentou consideravelmente os eventos no formato Fight Night e estão conseguindo de forma crescente aumentar cada vez mais o número de eventos, conseguindo em alguns meses ter evento em todos os finais de semana. Aumentaram também as categorias de peso e um maior número de categorias aumenta bastante o número de atletas contratados pela organização. Eles definitivamente elevaram o patamar da empresa nos últimos anos. Porém ao chegar nesse nível, não estão sabendo lidar direito com algo tão grande, com o maior número de funcionários eles automaticamente passaram a ser visto como números, não fazendo diferença o lutador X ou Y, o que importa é o show e a produção. E não é bem assim que eles tem que lidar com as coisas, uma gestão que gera insatisfação dos funcionários e ainda por cima fortalece a concorrência, não pode esperar nada diferente do que uma perspectiva negativa para o futuro. O UFC foi essencial para o crescimento do esporte, e dessa vez pode ser que a falha administrativa que estão cometendo pode acabar ajudando o esporte também. E eu digo como. Com o crescimento do Bellator, que vem fazendo parceria com outros eventos como o RIZIN FC e o Glory, além de eventos como WSOF e ONE FC se consolidando no mercado, a tendência é um número cada vez maior de atletas do UFC migrarem para outras organizações,  e o mais importante é que esses eventos estão pagando aos atletas bolsas equivalentes às do UFC, então no final das contas isso vai acabar fortalecendo o esporte como um todo, acabando com o monopólio e dando aos atletas a oportunidade de escolher aonde querem trabalhar, e não serem obrigados a terem que aceitar os contratos abusivos do UFC.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com