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Jiu-jitsu aos 40 – Sangue e Areia em Lisboa

“Não me deixe jamais implorar para acalmar meu coração e tirar a minha dor, mas para ser destemido e audaz diante de tudo o que venha a me assombrar. Amém.” Dessa maneira, no sábado, eu terminava a minha oração, a última coisa antes de deixar o hotel e ir para o Pavilhão Multiusos de Odivelas, lutar meu segundo campeonato europeu. Ou por outra, a penúltima. Depois disso, peguei minha caneta e escrevi na parte de dentro da lapela do meu kimono: “Ana Luisa – Sempre Comigo”. Mais uma vez minha filhinha estaria do meu lado.

No ano anterior, machuquei meu joelho na primeira luta, e apesar de vencê-la, fui sem condições de combate para a segunda, onde acabei derrotado na decisão dos juízes. Esse ano minha meta era voltar com uma medalha no pescoço, nem que para isso tivesse que deixar meu coração naqueles tatames.

Peguei um uber e cheguei no ginásio faltando 1 hora e meia para a primeira batalha. Fui até o pódio e fechei os olhos: “aconteça o que acontecer, hoje estarei aí”, eu dizia a mim mesmo. Coloquei meu kimono e me dirigi para a área de aquecimento, que como sempre estava lotada. Escolhi um canto vazio, tarefa difícil, e pude me aquecer bem. Com o corpo já pingando de suor, me sentei, coloquei meu casaco, cobri a cabeça com o capuz e fiz a última mentalização.

Chamado para minha primeira luta, apliquei uma chave de omoplata no meu adversário, que rolou para fora com o golpe encaixado e tomou dois pontos. À frente no placar, administrei o resultado, evitando me desgastar muito, afinal, o dia estava só começando. No finzinho da luta, meu oponente foi para o tudo ou nada, capitalizei em cima do seu erro e fiz mais dois pontos, garantindo a vitória.

Voltei para a área de aquecimento, músculos gritando pela esforço realizado, peito arfando. Alonguei um pouco para soltar a musculatura, deitei para voltar a respiração ao normal. Minutos depois, já recuperado, era hora de pensar na próxima luta. Já estava aquecido, então o trabalho foi mais mental. Eu repetia como um mantra: “Nada vai me parar agora, vou dar tudo de mim para ganhar! Só saio de lá com a vitória!”

Meu próximo adversário era um tanque de forte. Ao me puxar para a guarda, consegui ser mais rápido, e com um salto, sobrepujei suas pernas e me vi montado. Dez segundos de luta e 4×0 no placar era tudo o que eu poderia querer. Eu vinha pronto para fazer uma guerra, mas agora tinha apenas que administrar o resultado para conquistar o bronze. E meu contendor vendeu caríssimo, fez toda a força do planeta Terra e de todos os outros para reverter a situação. Eu procurava me defender e pensava: “pelamordedeus cara, para de fazer força e me deixa ganhar”. Faltando 20s para o final, ele conseguiu me inverter e marcar 2 pontos. Percebendo que ainda estava vivo no combate, reuniu todas as forças numa última investida e virou um centauro, escoiceando para todos os lados. Fora do tatame, Guilherme Iunes, campeão europeu da Gracie Barra Recreio, vendo que eu estava sem córner, buscava me deixar tranquilo e dizia quanto tempo faltava. Muito obrigado meu amigo!  Os 20 segundos demoraram 32 anos para passar, mas aos trancos e barrancos eu estava na semi. Ao deixar o tatame, avistei a câmera do site flograppling.com, que transmitia minha luta, e dei um recado para meus pais e meu irmão. Estava tão esgotado que não tive raciocínio nem para incluir minha irmã e minha filha na mensagem, mas fique aqui registrado: amo vocês com toda minha energia.

Voltei para a área de aquecimento com uma fogueira no pulmão, demorei bem mais para me recuperar. Chamado para a semi, fui disposto a esquecer o cansaço, que naquele momento com certeza também vitimava meu adversário, e ir para guerra. Luta movimentada, no final acabou empatada. Decisão dos juízes, sua mão foi levantada. Em completa exaustão, dei um abraço no meu opositor, agradeci a honra de poder lutar com ele e lhe desejei sorte, dizendo que iria torcer por ele na final.

Voltei para a área de aquecimento, um turbilhão de pensamentos invadindo a minha mente. Fiz uma longa oração. O filme dos meus quase 25 anos nos tatames passava na minha cabeça. A gigantesca distância que havia entre o menino de 15 anos que dava seus primeiros e inseguros passos dentro de um dojô, e o homem de 40 que cruzou um oceano sozinho, quebrou as suas lanças e deixou seu coração naqueles tatames, saindo completamente esgotado. Meus olhos se enchendo de lágrimas; só eu sei o quanto me custou estar ali vivendo aqueles momentos. Um profundo sentimento de gratidão, por ter decidido me dar a chance de voltar a competir, há exatos dois anos atrás. Por todas as pessoas que passaram na minha vida e sem as quais nada seria possível, são inúmeras e muito especiais.

E, como eu dissera para a Ana Luísa meses antes, quando me perguntou até quando eu pretendia lutar: “Até o último dos meus dias minha filha, o que realmente vamos levar da vida são os momentos que estivemos com o rosto coberto de sangue e areia.” Ela me olhou com um misto de curiosidade e divertimento, pensando “meu pai é meio louco!”, mas naquele mesmo dia, horas depois, quando me ligou por vídeo, chorando, tive certeza que entendeu o que eu quis dizer.

Me segue lá no Instagram para acompanhar essa jornada no dia a dia: @jiujitsuaos40 !

  • Bruno Rossi

    Parabéns Fabinho pela sua conquista, motivação e amor ao jiu jitsu!! Um grande guerreiro exemplo para todos nos seus alunos!! Estamos sempre contigo!

  • Antonio Fontes Filho

    Parabéns Brother!!!!! Sei o quanto é importante esse resultado para a sequência dos treinamentos, dietas e os próximos campeonatos que estão por vir.

  • Marcel Bombeiro

    Emocionante, irmão…sensacional ler um texto que transmite tanto sentimento!E parabéns pela conquista!

  • Luis Fernando Silva

    Excelente! 👏🏽👏🏽👏🏽

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