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Jiu-jitsu aos 40 Ou: Neve no Deserto

Sexta-feira, 5 da tarde. O sol inclemente da Califórnia nos saúda na Academia Ares BJJ Mountain View, do meu grande amigo Milton Bastos. Ali começaria a parte final da minha jornada rumo ao mundial de Masters em Las Vegas. Decidi ir antes para treinar com meus parceiros da Ares BJJ, fazer os últimos ajustes e cair para dentro na quinta seguinte.

No tatame, velhos e novos amigos. Muitas histórias, muitas risadas, abraços fraternos. Que saudade eu estava dessa galera! Gente da Coréia, Grécia, Estados Unidos, México, Líbano, Brasil, todos falando a mesma língua. Porém, quando o sino toca, indicando o início do treino, sou forçado a lembrar de uma declaração do mestre Renzo Gracie: “a faixa preta cobre só dois dedos da sua bunda. O restante, quem tem que cobrir é você”.

Parece que estou no meio do conflito entre isralenses e palestinos, todo mundo querendo apertar o meu pescoço e esticar o meu braço, como tem que ser num treino de competição. E eu indo com tudo para cima, defendendo minhas articulações e tentando apertar as deles. No final do treino estamos todos mortos no tatame, pulmões arquejantes indicando extremo esforço. Juntamos toda a galera e fomos comer. Como estou ainda a quase 2 kg do peso da minha categoria, tive que pedir uma salada de atum e água para beber. Nada pior que salada, mas não tem outro jeito. Fomos para casa do meu amigo Javier Gomes, faixa preta da pesada, e sua namorada Erika, que hospedou a mim e meu amigo Kenny Kim de Atlanta.

Camp para o Mundial de Masters na ARES BJJ

Os dias que se seguiram foram do mesmo jeito, treinos fortes intercalados por muita salada, algumas idas à massagem chinesa para recuperar a carcaça, com sessões de tiro ao alvo e passeios pela fazenda do Javier para desestressar um pouco.

No tatame, Osvaldo Queixinho, Samir Chantre, Aluísio Moizinho, Felipe Abad, Igor Paiva e Breno Bittencourt me lembram a todo momento que eu ainda tenho muito o que aprender. Especialmente o Samir; se algum dia você visitar a Ares BJJ em Modesto e ele te chamar para um treino “só para suar”, prepare-se para lutar pela sua vida. Sempre muito bom treinar com ele, você fica sabendo exatamente onde tem que aprimorar o seu jogo.

Na terça, véspera da nossa viagem, fizemos o último treino. Todos felizes que tinha acabado a pior parte, agora era só esperar a hora da luta. Corpo saudável, mente focada, sentimento de gratidão por estar ali vivendo aqueles momentos. Eu e o Kenny dormimos na casa do Samir essa noite, e na quarta de manhã iríamos para San Francisco pegar o avião para Las Vegas.

No dia seguinte, um susto daqueles: estou sentado no sofá da sala do Samir esperando o Kenny sair do banheiro para escovar os dentes. Ao levantar, sinto a vista escurecer; me apoiei na parede, tentando me manter de pé. Os joelhos não obedeceram a ordem do cérebro, e caio no chão. Kenny corre preocupado e me ajuda a levantar. Os treinos fortes e a dieta puxada estavam cobrando seu preço. Pensei na hora: e agora? Nathalia e Samir chegam da academia minutos depois. Nathalia, que é Health Coach de atletas me passa uma lista de coisas para eu comprar: pedialyte, água de côco, açaí, carbo em gel e castanhas. Compro tudo e seguimos para o aeroporto. Durante a viagem, tento afastar a preocupação da cabeça, pensando que melhor passar mal na véspera do que no dia da luta.

Chegamos em Las Vegas na noite de quarta, fomos direto para o hotel. Durmo um sono pesado, cheio de sonhos com o campeonato. Em todos eu ganhava as lutas. Acordamos cedo na quinta, fomos direto para o Las Vegas Convention Center. Visto meu kimono e subo na balança: meio quilo acima. Como só ia lutar as 13:30, volto para o hotel para fazer uma banheira quente com Epsom Salt, que é tipo um sal grosso. A água quente abre os poros, e o sal puxa a água do corpo, você sua em bicas. Doze minutos depois, subo na balança: 1,3kg a menos, estou 800g abaixo do limite. Saio me sentindo fraco, cabeça doendo, corpo cansado. Ligo para Nathalia, que me orienta sobre o que e quanto comer e beber. Sigo as instruções e milagrosamente volto a me sentir bem, meu corpo disposto e pronto para as batalhas que viriam.

Apanho meu kimono e vou para o ginásio com o pensamento de dar tudo o que eu tenho. Antes, porém, pego uma caneta e escrevo na parte de dentro da lapela do meu kimono: “Ana Luisa – Sempre Comigo”. Meu kimono era azul, assim como a caneta, não dava para ver o que eu escrevi. Não importa. Eu sabia que a minha filha estaria do meu lado.

Minha primeira luta, um lutador de MMA. Estou meio tenso no início, puxo para a guarda e começo a atacar. O sujeito era forte como um estivador, e neutraliza minhas investidas. A luta se aproxima do fim, e eu penso: “Não posso deixar nas mãos do juiz de jeito nenhum”. Meu gancho De la Riva estava mal colocado, mas assim mesmo puxo meu oponente com toda força do planeta Terra e de todos os outros também. Solto um grito para fazer ainda mais força, tiro seus dois pés do tatame e jogo para o lado. Vou para cima, sabendo que ia ter que segurá-lo com tudo para que não levantasse. O juiz me dá os dois pontos, faltando um minuto para o fim da luta. Amarrei sem pudor, do jeito que pude, para garantir a vitória. O tempo acaba, respiro aliviado. A primeira etapa foi concluida.

Na segunda luta, mais relaxado, fiz vários pontos antes de obrigar meu adversário a bater em um katagatame bem ajustado. Na terceira, cometi um erro ao puxar para a guarda, meu contendor capitalizou e fez dois pontos. Não consegui reverter o resultado, e acabei perdendo. Sempre que eu perco, quando o juiz ergue a mão do vencedor, geralmente estou com a cabeça baixa, chateado e frustrado por não ter ganho. Observo a mesma linguagem corporal na quase totalidade dos lutadores.

Mas não nessa vez. Enquanto o braço do meu adversário era levantado, mantive minha cabeça erguida, olhando nos olhos dos meus amigos que gritavam para mim. Eu queria ter ganho, claro, mas não me sentia derrotado. De jeito nenhum. Meu semblante estava sério, não havia sorriso. Mas eu procurava transmitir a cada um deles a minha eterna gratidão por dividirem esses momentos comigo. Simbolicamente, meu olhar não era apenas para o Queixinho, Kenny e Roberto Vinagre. Eu queria que todos os meus parentes, amigos, parceiros de treino, e você que está lendo agora, se sentissem abraçados. Nunca imaginaria chegar tão longe em tão pouco tempo desde que decidi voltar a competir. Não conseguiria jamais sem toda essa ajuda. Se me falassem ano passado que tudo isso iria acontecer, eu diria que era mais fácil ter um dia de neve no deserto do Saara.

Cumprimento meu oponente, desejando sucesso no resto do campeonato. Saio do tatame, um pensamento na cabeça: ano que vem estarei de volta, tentando fazer nevar no deserto.

Faltam 365 dias.

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Releia as colunas anteriores da série “Jiu Jitsu aos 40”:

Coluna 1 – Até que esse coroa é duro hein

Coluna 2 – Alô, é da casa do leão sem dentes?

Coluna 3 – Garçom, me traz um elefante!

Coluna 4 – Caindo pra dentro de 1000 Godzilas

Coluna 5 – Atropelado por um Bulldozer

Coluna 6 – Filhote de Panda no Liquidificador Aumenta o Gás?

Coluna 7 – Um Domingo rogergracie

Coluna 8 – Mestre, me arruma um salva-galos?

Coluna 9 – Coluna “Jiu Jitsu aos 40”: Ou “A Cela Escura”

Coluna 10 – Você não é Renzo Gracie

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  • Bruno Rossi

    Fabinho é um guerreiro! Poucos nessa fase estão dispostos a se submeterem a uma rotina stressante, de dieta, musculação e treinos rotineiros..e esse cara faz tudo, e ainda concilia com a vida profissional. Quem dera vivesse como profissional do jiu jitsu né Fabinho?! Abraçao

  • André Martins

    Cara, torci muito por você e me emocionei lendo esse artigo. Depois de quase 13 anos afastado da Arte Suave, de certa forma me espelhei em voce, voltei a treinar e me arrisquei competir no último regional de Barueri. Tive um péssimo resultado, mas estava feliz. Parabéns!!! Você é “o cara”. Abraço

  • Antonio Fontes Filho

    Isso aí Brother, sempre caindo pra dentro!!!!!! 👊🏽👊🏽👊🏽

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