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Jiu-Jitsu aos 40: Like a Rolling Stone

Os autofalantes do meu som Aiwa quase explodiam, nos anos 90, quando eu colocava Like a Rolling Stone no volume máximo. Sempre me chamou a atenção a passagem “When you ain’t got nothing, you got nothing to lose”. Quando você não tem nada, não há nada a perder.

Pano rápido, vamos para São Paulo. Nessa mesma época, nosso herói caminhava pelas avenidas da grande metrópole, com seu terno de grife, relógio importado e sapatos impecavelmente engraxados. O kimono, antes usado com frequência, era peça cada vez mais rara no seu vestuário.

Apesar de jovem, já ostentava um currículo recheado: graduação, duas pós e mestrado, sempre por universidades renomadas. Começava a colher o sucesso profissional como advogado tributarista, pavimentando uma sólida carreira. Publicava artigos científicos, dava aulas e palestras, participando de congressos e simpósios, e lecionava em cursos de pós-graduação e de especialização. Era reconhecido com distinção e respeito pelos seus pares, agraciado com premiações destinadas aos melhores advogados do país. Vida de sonho, pelo menos para a grande maioria dos bacharéis em direito despejados aos milhares pelas universidades do Brasil todos os anos.

No entanto, a pressão diária por resultados cada vez mais vultosos, a concorrência canina do ambiente corporativo, e uma jornada de trabalho comparável em estresse à de controladores de voo, fez com que nosso campeão desenvolvesse um transtorno de ansiedade que teve que ser tratado com muita terapia e antidepressivos. O médico, um verdadeiro sábio, enfatizou a importância, maior que a dos remédios e terapia, de que os treinos de jiu-jitsu não deveriam parar em hipótese alguma.  

O tempo no tatame, conforme prescrito, se intensificou, e dia após dia uma voz em sua consciência falava mais e mais alto. Após uma viagem para assistir o mundial de jiu-jitsu na Pirâmide, essa voz já usava um megafone, era impossível ignorá-la: “e se eu fosse morar nos EUA e viver de jiu-jitsu?”

Quando contava para as pessoas seu plano, a reação era como se dissesse que queria virar terrorista, ou traficante de órgãos. “Você só pode estar louco”, “O que você tem na cabeça?”, e outras manifestações não tão polidas, vindas da família e amigos.

“Quando você não tem nada, não há nada a perder”, cantava Bob Dylan, e depois Mick Jagger. Talvez para um garotão de 20 anos que só tenha o jiu-jitsu na vida, seja mais simples decidir largar tudo ir morar lá fora. Mas e quando você já tem inúmeras conquistas, se propõe a deixar tudo para trás e, beirando os 40, começar uma vida nova perseguindo seu sonho? O número de barreiras, externas e internas cresce exponencialmente, dificultando muito mais qualquer guinada, ainda mais dessa magnitude.

O apoio da esposa (um ser iluminado, que deveria ser canonizada em vida) foi fundamental, e, contrariando o senso comum, a intenção logo virou ação; o martelo foi batido, a Califórnia seria o destino, e a CheckMat Headquarters, em Signal Hill, ganharia um novo professor.

Afora a mudança geográfica, seguiram-se muitas outras. Zona de conforto era uma coisa que definitivamente deixava de existir, cada dia um novo desafio o confrontava. A participação em competições, antes esporádica, passa a ser frequente, com as agruras que essa escolha demanda. Dieta, lesões, treinos intensos, preparação física específica, tudo isso numa fase da vida em que a maioria dos lutadores está tirando o pé do acelerador.

Menos de 6 meses depois de mudar de vida, Hélio Barthem, faixa-preta, nosso personagem de hoje, conquistou sua maior medalha, maior ainda que as conquistadas no British Open, no Pan no gi e nos opens de San Jose e San Diego: a alta no tratamento de ansiedade. Corpo mais forte, mais magro, mais flexível e principalmente mais sereno. As idas para a farmácia agora são apenas para comprar anti-inflamatórios, os antidepressivos ficaram num passado cada vez mais longínquo. Os ternos bem cortados ficaram no Brasil, substituídos hoje em dia, com extremo prazer, pelos kimonos.  E a certeza que seguir seu coração, mesmo com tudo a perder, foi o melhor presente que poderia ter se dado: viver o seu sonho. Just like a Rolling Stone.

 

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