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Coluna Jiu Jitsu aos 40: Ou “Atropelado por um Bulldozer”

– “Fechem a janela e desliguem os ventiladores!”, disse o professor, no início do treino de competição para o Brasileiro de Jiu-jitsu, no longínquo ano de 1995. Não existia roteiro, nem planejamento prévio; a ordem era alternarmos os parceiros até ninguém mais se aguentar em pé. Havia um balde na beira do tatame, usado várias vezes por treino pelos participantes para “desengolirem” suas refeições, no linguajar culto do nosso faixa-preta.

E assim seguíamos até a véspera do campeonato, com sessões intermináveis, poças gigantes de suor no tatame, cansaço físico e mental em doses industriais. Você saía do treino precisando mais de banho e cama do que a Etiópia inteira precisa de água e pão.

Acreditava-se na época que quanto mais o corpo fosse açoitado antes da competição, mais a mente se endurecia e se preparava para os rigores que estavam por vir. Muitos pressupunham que treinar em condições e intensidade desumanas auxiliava não apenas na parte física, mas também chegar ao torneio com a autoestima maior do que a do Internet Explorer, quando te pergunta se pode ser o seu navegador padrão.

Essa, na verdade, é uma mentalidade presente ainda nos dias de hoje em muitas academias. Por mais que os métodos e rotinas variem, uma crença parece ser universal: o treino tem que representar o desafio mais árduo possível para os “mal-aventurados” participantes. O inferno é aqui.

Perguntei certa vez para um faixa-preta campeão mundial, como um praticante mais velho e não profissional – como eu – conseguiria conciliar uma rotina de treinamentos de alto nível com trabalho em tempo integral? A resposta veio de pronto: é impossível. Ao que meu interlocutor completou: mas o que é o jiu-jitsu, senão a arte de desmantelar convicções?

Ken Shamrock entrou com a certeza de que sairia vencedor sem dificuldades, e acabou sufocado num estrangulamento de Royce Gracie em dois minutos. Rei Zulu, que com sua força capaz de alterar a órbita de um pequeno planeta, tinha a mais profunda segurança que ia esmagar um jovem Rickson Gracie, acabou com o mesmo desfecho de Shamrock, aprisionado num bem encaixado mata-leão.

Com planejamento e disciplina, de acordo meu amigo, seria possível subverter a lógica e entrar nos campeonatos de forma realmente competitiva.

Sorri em assentimento, ao que o campeão me chamou para um treininho. Segundo ele, seria só para suar. Voltei para casa nesse dia com a sensação de que um trator bulldozer tinha passado em cima de todas as minhas juntas, mas feliz pelo ensinamento e ansioso pelo próximo campeonato como uma criança em noite de natal.

Faltam 46 dias.

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Releia as colunas anteriores da série “Jiu Jitsu aos 40”:

Coluna 1 – Até que esse coroa é duro hein

Coluna 2 – Alô, é da casa do leão sem dentes?

Coluna 3 – Garçom, me traz um elefante!

Coluna 4 – Caindo pra dentro de 1000 Godzilas

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Fábio de Jesus

Me segue lá no Instagram para acompanhar essa jornada no dia a dia: @jiujitsuaos40 !

 

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