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Heptacampeã mundial e Hall da Fama da IBJJF, Hannette Staack fala sobre o panorama do Jiu-Jitsu feminino atualmente

O número de mulheres praticantes de Jiu-Jitsu têm aumentado de forma considerável nos últimos anos. Podemos notar que tanto nos campeonatos, quanto nas academias, o número de meninas aumentou consideravelmente nos últimos anos.

O sucesso atual foi conquistado graças a muita luta, e insistência de algumas mulheres, que no passado, enfrentaram a discriminação e fizeram do Jiu-Jitsu a sua profissão, uma dessas meninas foi Hannette Staack. Heptacampeã mundial e campeã no peso e no absoluto do ADCC em 2007, Hannette foi além da carreira esportiva, atualmente ela mantém juntamente com seu esposo André “Negão” Terêncio, o Projeto Brazil 021, que atende crianças no Rio de Janeiro.

O BJJForum bateu um papo com a integrante do Hall da Fama do Jiu-Jitsu feminino, que dentre os assuntos, comentou o panorama atual das competições femininas pelo mundo.

BJJFORUM – Quando você começou no Jiu-Jitsu e qual foi a sua motivação na época para praticar o esporte?

Hannette Staack: Eu comecei no ano de 1997, quando um amigo me convidou para fazer uma aula experimental. Uma vez ele me viu escalando uma pedra e falou que eu tinha uma boa pegada e poderia ser boa para o Jiu-Jitsu. Fui fazer uma aula e foi amor a primeira vista. O que mais me encantou no esporte, foi o fato de uma pessoa menor, poder se defender ou até mesmo “ganhar” de alguém maior. Também o fato de ser um esporte inteligente, onde você lida com momentos diversos, em um minuto alguém pode estar montado em você com um estrangulamento encaixado, mas no outro você pode virar o jogo e ainda finalizar. Como um Xadrez humano. Eu sempre gostei de esportes e estava realmente buscando algo que complementasse a minha vida e o Jiu-Jitsu chegou na hora exata, para me resgatar e para mudar radicalmente a minha vida.

BJJFORUM – Existia algum tipo de preconceito por parte dos seus companheiros de equipe na época, pelo fato de você ser mulher?

Hannette Staack: Com certeza! Há três semanas atrás, eu tive a honra de poder escutar um pouco da história da primeira mulher a transformar o Jiu-Jitsu, Leka Vieira, que causando polêmica, foi quem primeiro trouxe os olhos para o Jiu-Jitsu feminino. Nessa conversa estávamos falando sobre como tínhamos que “Matar um leão por dia para estar ali”, basicamente provar todos os dias que estávamos ali para ficar, com um objetivo único, aprender a Arte! Eu sei que muitas pessoas não se sentiam confortáveis treinando com uma mulher, outros não sabiam lidar com o fato de ser finalizado ou perder para uma mulher, muitas pessoas não sabiam como a esposa ou namorada reagiria se soubesse que existiam mulheres treinando com eles, tudo isso era muito novo… Era o ambiente deles ali. Eu entendia e tentava ao máximo possível me camuflar entre eles. Depois de algumas semanas as pessoas perceberam que eu estava lá para ficar, que eu não estava lá em busca de um namorado ou coisa assim. Eu realmente queria aprender e competir. Um fato engraçado foi quando conheci meu marido e professor desde a faixa roxa, André “ Negão” Terencio, fui fazer um treino experimental na sua academia pela primeira vez, ele me confidenciou depois de muitos anos, que não imaginava que eu fosse tão bonita em roupas normais (risos). Isso aconteceu exatamente por que eu não queria que as pessoas me enxergassem como uma mulher naquele momento, mas sim como mais um praticante de Jiu-Jitsu. Muitos hoje pensariam que é um absurdo e que não faz sentido alguém pensar assim, em não querer ter mulheres em sua academia, mas acredite se quiser, essa foi a nossa realidade por muitos anos. Com certeza hoje muitas mulheres podem praticar e se dedicar ao esporte graças a dedicação e comprometimento de quem começou esse movimento lá atrás.

BJJFORUM – Você competiu em diversas fases do Jiu-Jitsu feminino. Você pegou a época em que as faixas Roxa e Marrom competiam junto com a faixa preta e enfrentou muitas meninas que estão no topo hoje. Como você vê a evolução do jiu-jitsu feminino?

Hannette Staack: Eu vejo muito positivamente, fico muito feliz de ver cada vez mais mulheres capazes de viver do Jiu-Jitsu Brasileiro ou da luta em geral (MMA, etc). No inicio era bem complicado, principalmente quanto mais graduada você ia ficando. Muitas meninas faixas marrons e pretas as vezes não entravam nas competições, porque não queriam lutar contra uma menina menos graduada. Você tinha mais a perder do que a ganhar nessa situação. Além de situações diversas que nós mulheres temos que lidar durante o curso da vida como: filhos, trabalho, marido/namorado, etc. Ainda mais quando falamos de artes marciais, que precisamos de corpo e mente equilibrados. Eu acho que o Jiu-Jitsu evoluiu bastante e hoje em dia existe menos preconceito do que no passado, porém ainda temos um grande caminho a ser percorrido em termos não somente de premiação, mas de suporte às praticantes de Jiu-Jitsu. Por exemplo, fico vendo muitas pessoas que colocam hashtag #suportwomenbjj e #equalpayforbjj , que promovem igualdade e suporte à comunidade feminina no Jiu-Jitsu, porém na hora de mostrar em ações o seu verdadeiro suporte, preferem chamar um homem campeão mundial para sua academia ou não fariam aula com uma mulher.

BJJFORUM – Quais são as suas lutadoras favoritas na atualidade?

Hannette Staack: Tenho várias lutadoras preferidas! Essa nova geração está muito bonita de se ver e com um Jiu-Jitsu muito ofensivo, como a Nathiely de Jesus, Tayane Porfírio, Bia Basílio, fora as faixas coloridas, que eu acompanho há muito tempo. Gosto de acompanhar a nova geração e os novos talentos, foi assim que eu descobri a minha amiga Luanna Alzuguir! Quando eu bati o olho nela, ainda na faixa azul, ela havia sido campeã brasileira! Outro ponto positivo de acompanhar as faixas coloridas é poder me manter atualizada sobre as competições e assim poder contribuir na formação das minhas alunas.

BJJFORUM – Existem eventos que possuem premiação em dinheiro (UAEJJF e IBJJF), porém o pagamento para as mulheres é bem abaixo ao dos homens. Qual a sua opinião sobre isso?

Hannette Staack: A gente vai chegar em um nível de participação próximo ao masculino nas competições. Acredito que quando isso ocorrer, poderemos reivindicar esse direito de premiação. Nesse momento em algumas competições, é bem difícil achar meninas para participar. Estou tendo esse problema particularmente com minhas meninas aqui em Chicago. Só aparecem competidoras em campeonatos grandes, nos campeonatos locais, o quórum é baixo.

BJJFORUM – Quais foram as lutas que mais te marcaram?

Hannette Staack: A minha luta com a Leka em 2004 e a final do ADCC de 2007. Essas duas com certeza foram as mais importantes! Uma porque me consagrou no cenário do Jiu-Jitsu, pois a Leka ja era campeã mundial, nunca tínhamos lutado e eu sabia que seria uma luta duríssima. E Em 2007 quando finalizei com o Armlock voador e me consagrei! Após essa vitória, eu consolidei minha carreira aqui nos Estados Unidos. Viemos para cá com apenas $3,500 e ganhei uma premiação no ADCC. Assim começamos nossa jornada e a jornada da Brazil-021 School of Jiu-Jitsu.

BJJFORUM – Você e seu marido André Negão possuem o projeto  social Brazil 021, que atende crianças do Morro do Borel. Fale mais sobre esse projeto?

Hannette Staack: No Brasil, o Projeto Brazil-021 já funciona e atende crianças da comunidade do Morro do Borel e algumas crianças da Ilha de Paquetá. No ano de 2015 trouxemos duas crianças do Projeto Brazil-021 Borel para competir no Campeonato Mundial de Jiu-Jitsu e depois levamos para conhecer a Disneylândia. Os dois atletas ficaram com a terceira colocação no Campeonato Mundial e com uma experiência incrível para a vida toda. A nossa ideia é esse ano, fazer o mesmo para algum atleta do nosso Projeto. Também se possível estender esse projeto para locais nos Estados Unidos que necessitam de um projeto como esse. Porém como não contamos com nenhum grande patrocínio, precisamos dar um passo de cada vez.

BJJFORUM – O Projeto hoje conta com patrocinadores ou toda a verba sai do bolso de vocês?

Hannette Staack: Toda a verba sai basicamente de nossos investimentos. Fizemos camisas para ajudar no projeto, adesivos. Também contamos com a doação de nossos alunos estrangeiros, que sempre contribuem comprando a camisa ou doando diretamente para o projeto. O suporte deles é incrível e é como mantemos a nossa instituição viva.

BJJFORUM – Caso alguma pessoa física ou jurídica tenha interesse em ajudar o projeto, como ela deve proceder?

Hannette Staack: Estamos em busca de empresas sérias e com interesse em patrocinar o nosso projeto, ou pelo menos contribuir para a instituição. Por enquanto para contribuir, a pessoa pode comprar a nossa camisa ou fazer uma contribuição direta pelo PayPal para a nossa conta (info@brazil021project.com).

BJJFORUM – Qual o conselho que você daria para aquelas meninas que sonham em viver do Jiu-Jitsu?

Hannette Staack: Eu diria que tudo é possível com dedicação e comprometimento. A consistência e a qualidade do seu trabalho são sempre os fatores que fazem diferença.

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