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Fernando Terere, Alan Finfou e o momento mais emocionante da história do Jiu Jitsu

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Tererê e Finfou na Suécia

Um jovem negro criado na favela do Cantagalo, em meio à pobreza, violência e tráfico de drogas, trilhando seu caminho para o sucesso por meio do esporte. E não calçando chuteiras como a maioria ali sonha, mas sim com um kimono e uma faixa na cintura. E mesmo após chegar à faixa preta e ser reconhecido mundialmente como um dos melhores, acabar em uma perigosíssima batalha para manter sua saúde e poder um dia voltar aos tatames.

Lendo a descrição acima, um nome vem à cabeça de qualquer fã de Jiu Jitsu: Fernando Tererê. Da infância pobre em uma das regiões mais perigosas do Rio de Janeiro ao sucesso como um dos melhores lutadores de Jiu Jitsu da história, passando por uma crise psicológica dentro de um avião, que acabou com Tererê preso e deportado dos Estados Unidos e pela maior luta de sua vida, a dependência química do crack e a luta contra a esquizofrenia. A vida de Tererê teve tantos altos e baixos, tanto carisma e tantas más escolhas que parece roteiro de um filme hollywoodiano.

Porém, se você reler o primeiro parágrafo desse texto, verá que ele também descreve perfeitamente um outro grande nome do Jiu Jitsu, cuja história se entrelaça com a de Tererê: Alan “Finfou” Nascimento.

Finfou foi criado pela avó também na favela do Cantagalo, tendo que trabalhar e estudar desde muito cedo para conseguir sobreviver de forma honesta. E por obra do destino, enquanto jogava em um fliperama, foi convidado para treinar Jiu Jitsu em uma academia que existia no Morro do Cantagalo. O autor do convite era ninguém menos que Fernando Tererê. A academia onde Finfou viria a treinar era um projeto social criado por Tererê com objetivo de afastar crianças e adolescentes dos crimes e das drogas, dando a eles o Jiu Jitsu como distração e, quem sabe, uma possibilidade de vida.

E foi isso que moveu Finfou. Tendo identificado o Jiu Jitsu como uma possível forma de ter uma vida melhor, ele passou a se dedicar e treinar mais do que os colegas, conciliando os treinos com os estudos noturnos, recebendo a faixa roxa de Tererê. No entanto, o destino que cruzou o caminho dos dois optou por naquele momento separá-los. Tererê, por motivos pessoais, precisou deixar o Rio de Janeiro e se mudar para São Paulo, deixando o Projeto Social nas mão de outra lenda do Jiu Jitsu, Ricardinho Vieira (que até hoje conduz os treinos por lá).

Ricardinho terminou de conduzir Finfou à faixa preta e aos mais diversos títulos. Todavia, mesmo com tantos ouros, não havia muito dinheiro no Jiu Jitsu nacional naquela época. Ao receber uma proposta para ir ensinar a arte suave na Suécia, Finfou decidiu tentar a vida no norte europeu.

E as coincidências não param por aí, pois ambos tiveram que lutar duramente contra problemas de saúde. Enquanto Tererê teve seu drama pessoal contra as drogas, Finfou viu sua saúde ameaçada graças a um acidente durante uma luta.

Nas semifinais do Mundial de 2014 contra Otávio Souza, Finfou bateu a cabeça no tatame e sofreu uma lesão na medula espinhal, que o fez perder instantaneamente os movimentos nos braços e pernas. Aos poucos, Finfou recuperou a movimentação nos braços e pernas, voltou a treinar e recentemente voltou a competir, sendo campeão no Rome Open de Jiu Jitsu.

Neste meio tempo, Tererê já estava com graves problemas, lutando contra o vício no crack e com um quadro de esquizofrenia e síndrome do pânico agravado pela droga. Em uma de suas crises, Tererê tentou vender a Finfou sua faixa preta, pedindo 5 reais por ela. À época, Finfou sabia que Tererê pretendia usar o dinheiro para comprar crack, pegou a faixa do antigo mentor e se comprometeu a devolvê-la quando Tererê estivesse recuperado.

E cada um seguiu seu caminho. Finfou se estabeleceu na Suécia, onde atingiu o sucesso profissional e pessoal, enquanto Tererê passou muitos anos entre internações em clínicas psiquiátricas e de reabilitação quando, finalmente, em 2012 conseguiu superar de vez o vício e os problemas psicológicos e voltar a competir. A princípio, venceu um pequeno torneio regional no México, título este que não teria a menor relevância se comparado aos Mundiais de Tererê, mas que se tornou sua vitória mais importante dado o contexto em que aconteceu.

Pouco tempo depois, o mesmo destino que cruzou os caminhos de Tererê e Finfou naquele fliperama da favela, colocou os dois novamente frente a frente, muito longe dali. Desta vez, Tererê e Finfou se viram como adversários na semifinal do Europeu de Jiu Jitsu em 2013, realizado em Lisboa. Após quase 9 anos afastado das maiores competições da IBJJF por conta de seu drama pessoal, Tererê estava de volta ao palco de onde nunca deveria ter saído, mostrando que paixão e dedicação podem superar qualquer coisa, inclusive o vício.

Quando os dois pisaram no tatame para a semifinal, o ginásio parou para olhar. Haveria um duelo entre Mestre e Aluno?

Finfou x Terere Capa

Finfou entrou no tatame usando a mesma faixa preta que lhe havia sido vendida por 5 reais por Tererê. Aquela que ele havia prometido devolver quando Tererê estivesse totalmente recuperado. E não havia momento melhor do que aquele. Tererê estava novamente competindo em alto nível, lutando contra os melhores faixas pretas do mundo, com corpo e mente saudáveis. Então Finfou retirou a faixa da cintura e a devolveu a Tererê, cumprindo a promessa feita anos atrás e nunca esquecida.

Em declaração, Finfou explicou o ato:

“Fernando Tererê me fez ser quem sou no Jiu Jitsu. Ele me ensinou desde a faixa branca. Essa faixa, ele me deu um dia e pediu 5 reais, e eu sabia que ele iria comprar crack. Eu disse a ele que lhe devolveria a faixa quando ele estivesse 100% recuperado. Não há momento melhor do que esse! Eu irei dormir cheio de orgulho e felicidade hoje!”

Neste momento, Finfou deu ao mundo uma aula sobre humildade, gratidão e sobre o verdadeiro espírito do esporte. Mostrou que vencer nem sempre é a coisa mais importante em uma disputa esportiva. Mostrou que é possível mudar de professor, de equipe, de país, buscar seu próprio caminho pro sucesso, e mesmo assim se manter grato a quem lhe ajudou e lembrar de suas origens.

Por isso, na humilde opinião deste que vos escreve, o momento mais emocionante da história do Jiu Jitsu não foi uma vitória na final do absoluto mundial. Não foi sequer uma luta propriamente dita. Eu, que sempre fui crítico dos fechamentos entre colegas de equipe, tenho que reconhecer. Alan Finfou abrindo a semifinal para Tererê e lhe devolvendo sua antiga faixa preta foi o momento mais bonito e emocionante que o esporte que tanto amo já me proporcionou.

About Bruno Fugazza

Bruno Fugazza é faixa roxa de Jiu Jitsu, árbitro de MMA, e um eterno apaixonado por artes marciais. Começou com as primeiras quedas no Judo aos 5 anos de idade, passou pelo Muay Thai Muay Thai, até encontrar no Jiu Jitsu o amor verdadeiro. Teve a sorte de ver ao vivo na Califórnia a melhor luta da história do esporte, entre Buchecha e Rodolfo no Mundial de 2012.
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