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De cara para o pânico: a superação do campeão Antonio “Cara de Sapato”

"Devemos gerar coragem igual ao tamanho das dificuldades que enfrentamos", ao que parece, Cara de Sapato absorveu bem Dalai Lama.

“Ao olhar para trás e ver tudo que já vivi e passei, sei que posso chegar muito mais longe”

Olhando para a carreira de Antonio Carlos Jr., mais conhecido pelo peculiar apelido “Cara de Sapato”, se tem a certeza que trata-se de um atleta vencedor. Bi-campeão mundial de jiu-jitsu na faixa marrom, campeão Pan-americano na faixa preta e campeão da terceira edição do The Ultimate Fighter Brasil (dentre outras conquistas), não há como ter dúvidas do seu sucesso como artista marcial. Contudo, esse paraibano de João Pessoa quase foi derrotado por um adversário invisível e tão implacável quanto Vitor Miranda, Leandro Lo, Rodolfo Vieira e tantos outros talentos do MMA ou jiu-jitsu: o transtorno de pânico.
 
O transtorno de ansiedade, categoria do pânico de acordo com a Classificação Internacional das Doenças (CID), popularmente também conhecido como síndrome, é caracterizado por constantes crises disfuncionais que acometem o sujeito com um sentimento intenso e sufocante de mal estar, potencializado por um medo agudo (muitas vezes sem causa aparente) e causando desordem física e cognitiva. O tratamento é longo, com profissionais das áreas médica e psicoterápica, e nada fácil.
 
Nesta entrevista exclusiva, o lutador peso-médio do UFC conta um pouco sobre sua experiência para o MMA no Divã, ajudando a deixar claro tanto que qualquer um está sujeito a um transtorno de desenvolvimento psicológico quanto também é possível superar essa adversidade.
 
BJJForum: Em matérias sobre sua carreira relatam que o seu início no jiu-jitsu se deu como uma forma de dar conta da sua hiperatividade. É verdade? Caso tenha sido, a arte suave, que demanda muita atenção, o ajudou?
Antonio “Cara de Sapato” Jr.: Desde pequeno sempre fui muito hiperativo e busquei gastar essa energia nos esportes, só que acabei me apaixonando pelo jiu-jitsu e me dediquei bastante, participando de várias competições e tirando um pouco de toda aquela agitação – o que meus pais agradecem (risos).
 
BJJF: Desde a época que competia no jiu-jitsu já era sabido a sua luta contra a síndrome do pânico. Desde quando sofre com os sintomas e como buscou superá-los?
Cara de Sapato: Os sintomas apareceram no início de 2011, após o falecimento de um grande amigo meu (Rufino “Morceguinho” Araújo, primeiro professor de Antonio), o que me causou um grande trauma. Logo busquei sempre acreditar que poderia passar por aquilo da melhor forma, que era um momento ruim da minha vida e que precisava superar. Claro que busquei ajuda de profissionais, como psicólogo e psiquiatra, mas o importante também é crer que podemos passar por essa dificuldade, e graças a Deus hoje eu posso dizer que venci o pânico.
 
BJJF: A pressão do esporte de competição, seja o jiu-jitsu ou o MMA, é vivenciado por você como um estímulo de superação contra a síndrome do pânico ou um obstáculo a mais para lidar com ela?
Cara de Sapato: É sempre um estímulo passar pelas dificuldades, ter um obstáculo mas se desafiar por ele, assim tendo um objetivo. Sem dúvida eu vivencio isso como um grande impulso para chegar onde quero. Ao olhar para trás e ver tudo o que já vivi e passei, sei que posso chegar muito mais longe pelo o que já venci na vida.
 
BJJF: Você competiu o TUF no peso pesado, desceu para o meio-pesado e logo desceu novamente para o peso médio, que parece ser a sua categoria na era atual do MMA – onde lutadores perdem muito peso. Foi o seu terceiro corte para 84kg, tem sido uma dificuldade emocional a mais o estresse e desgaste para cortar o peso?
Cara de Sapato: Na verdade a perda de peso tem sido mais fácil do que imaginei. Claro que há o estresse físico e emocional, pelo desgaste. Mas faço da melhor forma possível, com acompanhamento necessário do meu médicos e professores, para que essa perda seja realizada da forma mais branda possível.
 
BJJF: Qual o planejamento para o próximo desafio, Antonio? Já tem ideia de quando volta ao octágono ou ainda não houveram conversas com sua equipe e UFC sobre isso?
Cara de Sapato: Ainda não tem nada planejado. Conversei com a minha equipe e decidimos que vamos fazer um pré-camp, aprimorando a parte técnica e física, para quando entrar no octógano novamente estar bem preparado para não decepcionar.
 
BJJF: Com tudo o que já vivenciou e superou, qual o recado que deixa para as pessoas que passam pela mesma dificuldade da síndrome do pânico?
Cara de Sapato: A mensagem que deixo é para elas acreditarem que é apenas uma fase, para procurarem os profissionais necessários (o que me ajudou muito) e crerem em Deus. Entender também que é uma fase e que não é para sempre, sabendo que pode até durar muito tempo, mas acreditando na cura, pois tomando as decisões e medidas certas, isso vai passar e, lá na frente, será possível olhar para trás e ver que foi um momento de amadurecimento e aprendizado, apesar de nada prazeroso – pois aprendemos muito nas crises.
 
BJJF: Obrigado pela contribuição com a coluna MMA no Divã e a atenção com a equipe do BJJForum, Antonio.
Cara de Sapato: Agradeço o espaço pela entrevista, aos meus amigos, familiares, a minha namorada e a minha equipe American Top Team, além da Hugsteam que tem me ajudado bastante e a todos brasileiros que estão na torcida por mim. Oss!
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Ao que parece, Cara de Sapato absorveu perfeitamente o pensamento de Dalai Lama: “Devemos gerar coragem igual ao tamanho das dificuldades que enfrentamos”. Que isso possa inspirar a todos. Oss!
 
Agradecimento especial ao Leonardo Oliveira e toda equipe Hugsteam;
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