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Crônicas do Mundial – O Campeão Voltou! E melhor que antes

Tivemos um Mundial nada menos do que espetacular e histórico. A Walter Pyramid em Long Beach se tornou um caldeirão onde se misturaram alternadamente emoções das mais diversas. A empatia coletiva pela felicidade de jovens chocando o mundo, como a de Márcio André ao desbancar o lendário Rubens Cobrinha logo dava vez à tristeza por ver alguns ídolos da estirpe de Rômulo Barral, Michelle Nicolini e Vitor Estima se despedirem daquele palco.

Seria por demais pretensioso tentar escrever de uma só vez sobre tudo que aconteceu de importante no evento.

Por este motivo, optamos pela liberdade de escrevermos capítulos separados na tentativa (usualmente frustrada) de converter em palavras tais momentos. E para começar, escolhemos contar a história sobre como Marcus Almeida Buchecha retornou ao topo, um ano após uma lesão que colocou sua carreira em risco.

Buchecha - O Retorno

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Antes de falar sobre Buchecha, relembremos que o mundo das lutas perdeu um de seus maiores nomes em todos os tempos com o falecimento de Muhammad Ali neste final de semana, durante o Mundial. Para quem gosta de coincidências, Ali e Buchecha guardaram algumas entre si: ambos disputavam a categoria mais pesada de seus esportes; possuíam 1,92m de altura; venceram seu primeiro título mundial no ano em que completariam 22 anos; e principalmente, ambos nunca se contentaram apenas com a vitória, pois compreenderam que vencer convencendo e enchendo os olhos dos fãs os fazia ainda maiores.

Ali era tão bom com as palavras quanto com as mãos, e deixou um acervo histórico de frases eternizadas, dentre as quais separamos duas como pano de fundo para o presente texto:

“A luta é vencida ou perdida longe das testemunhas, por trás das cordas, no ginásio e lá fora na estrada, muito antes de eu dançar sob aquelas luzes.”

Campeões não são feitos em academias. Campeões são feitos de algo que eles têm profundamente dentro de si — um desejo, um sonho, uma visão.”

Todo o mundo testemunhou Buchecha em suas performances espetaculares. As guerras com Rodolfo Vieira, as viradas explosivas quando as lutas pareciam perdidas, os giros de um peso pena preso em um corpo de 110kg, o quase armlock em Roger Gracie e, obviamente os 4 títulos Mundiais no Absoluto, marca que ninguém jamais atingiu.

Mas estas lutas começaram a ser vencidas muitos anos antes dele “dançar sob aquelas luzes”. Começaram, por exemplo, há pouco mais de 10 anos, quando Buchecha ia todos os dias do Catiapoã em São Vicente até a Ponta da Praia em Santos de bicicleta(um percurso de aproximadamente 12km) para treinar sob tutela de Rodrigo Cavaca. E essa vitória de domingo, em específico, começou 12 meses atrás, quando durante o Mundial de 2015, Buchecha rompeu três ligamentos do joelho e precisou sair do ginásio em uma maca direto para ambulância.

Ninguém melhor que ele para explicar o que passou pela sua cabeça naqueles momentos:

Eu deixei o ginásio do Mundial de 2015, com uma lesão no joelho, 3 ligamentos rompidos e muita dor, não só da derrota mas fisicamente. Tive que escutar aplausos e muitas comemorações no pior momento da minha carreira, no momento da minha lesão, sinceramente aquilo me deixou com desgosto de competir, muita gente fazendo festa com a lesão de um atleta. Mas a raiva desses gritos de alegria e felicidade passou e isso se tornou motivação e mais um motivo para voltar naquela pirâmide, e fiz uma promessa a mim mesmo: eu prometi que iria voltar e que dessa vez não sairia de maca e nem em uma ambulância, lembro muito bem daquela viagem da pirâmide ate o hospital e tudo que estava passando na minha cabeça“.

A dúvida geral também era dele: será que Buchecha voltaria a ser o mesmo após a lesão e a cirurgia? Teria a mesma explosão? A mesma velocidade? A mesma força? Seria novamente o melhor do mundo? Voltaria a ser tão bom quanto era? Segundo o próprio, a resposta é não.

Ele não voltou a ser o mesmo, mas de fato retornou ainda melhor do que antes:

Após a operação, muitas vezes eu achei que seria o fim para mim e que eu não voltaria a ser o Buchecha que eu era antes da operação, mas Graças a Deus escolhi as pessoas certas para estarem do meu lado durante esse tempo e eles fizeram eu acreditar que seria possível eu voltar e além disso eu voltaria melhor do que antes. Nunca pensei que concordaria com isso mas hoje eu concordo, essa lesão me fez amadurecer muito como pessoa e como atleta“.

E o tão aguardado retorno se deu na primeira rodada do Absoluto, contra o americano Elliot Kelly. Buchecha não teve dificuldades para vencer por 6 a 0, mas o desempenho econômico deixou alguns com a pulga atrás da orelha. Nas segunda luta, uma chave de braço sobre Pedro Moura deu a impressão que ele realmente poderia estar de volta.

Mas foi em sua terceira luta que a dúvida foi completamente dirimida. Do outro lado, o atual campeão Absoluto do World Pro Felipe Preguiça seria o primeiro teste de elite no retorno de Buchecha. E ele sobrou na luta, abrindo 12 a 4 sobre Preguiça e terminando a luta com um lindo armlock da montada. Não havia mais dúvidas: O Campeão estava de volta, e continuava sendo o cara a ser batido. Graças a uma lesão de Leandro Lo, o caminho de Buchecha até a final do absoluto estava garantida.

No dia seguinte, durante a disputa do peso, Buchecha provou o que disse acima. Um 11 a 4 seguido de um armlock sobre João Gabriel na semifinal, e um novo armlock em menos de 3 minutos na final contra James Puopolo demonstravam o que parecia impossível: ele realmente aparentava estar melhor do que antes! Mais focado e mais agressivo, mas com todas suas antigas qualidades já conhecidas, parecia questão de horas até que o recorde de três absolutos de Roger Gracie fosse quebrado pelo atleta da Checkmat.

A essa altura, a dúvida sobre seu desempenho tinha dado lugar à certeza da vitória no absoluto. Mesmo tendo finalizado Bernardo Faria, poucos acreditavam que Erberth seria capaz de tirar algo da cartola que parasse Buchecha. E realmente não foi.

A final do absoluto passou longe do que se esperava. Após conseguir uma queda nos primeiros segundos e tentar uma ida para as costas, Buchecha acabou preso em uma perigosa situação onde Erberth poderia atacar o mesmo joelho operado que o afastou dos tatames por tanto tempo. A luta ficou então travada por muito tempo nesta posição. Erberth se recusava a abrir mão deste ataque, e Buchecha, na frente do placar, seguia a estratégia de esperar.

Já próximo do final da luta, Buchecha conseguiu estourar a pegada que ameaçava a chave de joelho, mas Erberth rapidamente colocou a luta na 50/50 e subiu para empatar a luta. Buchecha poderia tentar trocar raspagens da 50/50. Mas sua saída foi no melhor estilo “Buchecha”: ele desfaz a guarda 50/50 ainda por baixo, expõe suas costas para desespero da torcida da Checkmat, mas em um giro de último segundo cai novamente por cima na meia guarda invertida, fazendo 6 a 4 faltando 15 segundos para o final.

Dali ele apenas fez suas pegadas, e sabendo que a luta estava ganha, tentou segurar a emoção. Após o fim do combate, as lágrimas e a comemoração. Seu treinador Leozinho gritava “fica aí, fica aí” com medo que no calor do momento, Buchecha saísse da área de luta e acabasse sofrendo uma punição que lhe tiraria a vitória, o que nunca aconteceu.

Ele estava de volta ao lugar de onde foi tirado não por uma derrota, mas por uma lesão. E deixando o recado: vai ser difícil tirá-lo de lá!

Há ainda uma outra frase de Muhammad Ali que pode ser inserida no contexto deste retorno triunfal de Buchecha: “A vontade precisa ser maior que a habilidade“. Sua habilidade todos já conheciam. Mas sua vontade e determinação foram expostos ao mundo neste final de semana.

Parabéns, Buchecha. O Mundo do Jiu Jitsu sentiu sua falta.

Oss!

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