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Coluna “Jiu Jitsu aos 40”: Um domingo rogergracie

Foto por Vitor Freitas/Flograppling

“O que acontece quando uma força irresistível encontra um objeto que não pode ser movido?” nos pergunta o Paradoxo da Onipotência. No último domingo, o mundo do jiu-jitsu parou para assistir a resposta. Roger Gracie e Marcus Buchecha entraram no tatame gigante montado na Arena Carioca carregando, cada um, 10 medalhas de ouro em mundiais. Dois colossos, igualmente vitoriosos, lutaram pela coroa de maior competidor da história.

O Gracie Pro, evento idealizado por Kyra Gracie, começou no sábado, com seminários de feras do esporte e um grande campeonato, com premiação em dinheiro. Lutei e infelizmente perdi por uma vantagem para o meu adversário, mas posso dizer que poucos eventos foram tão grandiosos e bem organizados.

No domingo, as finais da faixa-preta foram um ótimo aperitivo para o embate definitivo. Mestre Róbson Gracie, minutos antes da luta das lutas e coroado por um aplauso ensurdecedor, vaticinava: “Se você não tem coração de ferro e nervos de aço, aqui não é o seu lugar!”. Naquele momento, a expectativa do público que lotava o magnífico ginásio chegava ao seu auge, a tensão no ar era quase palpável.

A luta começou estudada, como uma pequena e inocente brisa prenunciando a tempestade. De repente, na troca de pegadas, o primeiro trovão. Num movimento de característica explosão, Buchecha mergulha na perna esquerda de Roger, buscando a queda. Se tivesse ido de encontro a uma parede de tijolos, certamente atravessaria, tamanha pujança física. Roger dá um leve giro no quadril, segurando a faixa do adversário com a mão esquerda e empurrando sua cabeça para baixo com a direita, tentando desesperadamente frustrar seu objetivo.

O que se viu a seguir foram 15 quase intermináveis segundos de um rally inacreditável, onde um veio para matar e o outro não queria morrer. Nesta hora, foi como se todos os Gracie, os vivos e os mortos, tivessem apoiado as costas de Roger, para que não batesse no chão. Finalmente, foram parar fora do tatame. O juiz interrompeu o combate, mandando os oponentes voltarem para o meio da área de luta.

Roger põe as mãos nos joelhos, e pede ao juiz que verifique a faixa de Buchecha. Cansaço? Os 36 anos cobrando o preço? Falta de ritmo? Ninguém saberia dizer. Luta reiniciada, o Gracie então puxa para a guarda, e num movimento que eu já o tinha visto fazer com Tererê e Barral, vai com tudo para cima. Buchecha tenta de todas as maneiras impedir a progressão, sem obter sucesso, e acaba vendo o adversário grampeado em suas costas. Como um raio, a mão esquerda de Roger entra na gola indefesa de Buchecha. Nessa hora, um sorriso parece sair dos lábios do Gracie. Faz um pequeno ajuste com a mão direita. Inspira o ar profundamente, e puxa as duas lapelas em sentido contrário, com todas as forças. Buchecha segura o tríceps do adversário com uma das mãos e a nuca com a outra, tentando sair. Tarde demais. Sua respiração fica arquejante, o rosto se deforma pela falta de oxigênio. Os três tapinhas são inevitáveis.

Tios, primos e amigos de Roger invadem o tatame, numa comemoração gigantesca. Renzo Gracie entra caminhando, e antes de abraçar o sobrinho, cumprimenta Buchecha, sentado no chão, ainda atônito.

Na sequencia, um momento sublime e inesquecível, que poucos presentes notaram. Buchecha já havia se levantado. Rilion Gracie abandona a celebração da família, dando quatro passos em direção ao vencido. Segura seu rosto com as duas mãos, e diz em tom paternal: “Campeão, toda essa festa que nós estamos fazendo agora só está acontecendo porque você é um monstro, o melhor de todos que tem por aí. Levanta a cabeça, o que aconteceu hoje não muda em nada o seu valor, não apaga o que você já fez. Nós temos um profundo respeito por você”.

E a resposta ao Paradoxo da Onipotência, agora parece de uma obviedade cristalina: Roger Gracie não está sujeito às regras da lógica, tampouco às leis da física e da matemática, ou a qualquer tipo de abordagem filosófica. É ao mesmo tempo a força irresistível e o objeto que não se pode mover.

Rumores dão conta que a próxima edição do Dicionário Aurélio virá com um novo verbete: rogergracie. Seria usado quando alguém perguntasse: “Oi, você faz o que?” “Sou rogergracie em direito”, simbolizando o grau acadêmico máximo. Ou então, quando se quiser conquistar uma garota: “Gata, hoje você está a mais rogergracie dessa festa” – o galanteio supremo.

Depois do que ele fez ontem amigos, tudo é possível.

Faltam 32 dias.

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Releia as colunas anteriores da série “Jiu Jitsu aos 40”:

Coluna 1 – Até que esse coroa é duro hein

Coluna 2 – Alô, é da casa do leão sem dentes?

Coluna 3 – Garçom, me traz um elefante!

Coluna 4 – Caindo pra dentro de 1000 Godzilas

Coluna 5 – Atropelado por um Bulldozer

Coluna 6 – Filhote de Panda no Liquidificador Aumenta o Gás?

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Fábio de Jesus

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