Home / Colunas / Coluna “Jiu-jitsu aos 40” Ou: “Você Não é Renzo Gracie”

Coluna “Jiu-jitsu aos 40” Ou: “Você Não é Renzo Gracie”

Renzo finalizando Sanae Kikuta após 56 minutos de luta

O local é a Yokohama Arena. O evento é o Pride 2, março de 1998. Nos momentos iniciais do sexto round de 10 minutos, um grito corta o silêncio característico dos eventos japoneses: “The fun gonna start right now!!!”. Algo como: “Agora é que a brincadeira vai começar!!!”. Surpreendentemente, o grito vem de dentro do ringue. Um dos lutadores acabava de aprisionar o pescoço do rival em uma indefensável gravata técnica, hoje mais conhecida como guilhotina. Olha para o córner, grita, sorri e aperta o pescoço inimigo com tudo o que tem. Segundos depois, o juiz separa os contendores; a vítima se recusara a bater em desistência, e apaga inapelavelmente.

Anos depois, me encontro com o autor da façanha, Renzo Gracie. Recordo que ele já tinha usado o mesmo golpe para abater outros lutadores, e peço que me ensine sua forma de aplicá-lo. Certamente haveriam detalhes impercetptíveis a olho nu. Antes da demonstração porém, o mestre resolve contar como desenvolveu essa técnica: certo dia, um aluno faixa-branca surgiu empolgado no tatame, mostrando uma variação da guilhotina. Renzo assiste a demonstração, e faz alguns ajustes para deixar o golpe mais eficiente. Tempos depois, esse golpe foi visto vitimando Sanae Kikuta, no episódio contado, e o ex-campeão do UFC Pat Miletich, nos Estados Unidos.

Quando eu dava aula, costumava contar essa historia com frequencia aos alunos. E terminava: se Renzo Gracie, faixa preta de saber incontroverso, tem interersse em aprender o que um iniciante vem mostrar, quem somos nós para fazer diferente e nos fecharmos ao novo?

De fato, o jiu-jitsu é como um organismo vivo, está em constante mutação. Hoje em dia está muito diferente do praticado em 1993, quando eu comecei. Fico espantado com a velocidade das mudanças, e como elas transformaram a forma como se luta. E fico meio incomodado com certos rótulos que se ouvem diariamente nas academias.

Um dia um garotão me abordou no tatame: “Po, gostaria de aprender esse seu jogo old school”. Fitei meu interlocutor meio surpreso, pensando que raio ele queria dizer com isso. Da forma como eu entendo o jiu-jitsu, não existe old school, new school, nem qualquer outro tipo de school. Existe jiu-jitsu. Ponto.

É como se na cabeça das pessoas, existisse um limite de idade no qual não seria “permitido” aprender, como se o HD ficasse cheio. Ou que fosse possível focar só nas técnicas novas, e isso bastaria para ser um lutador completo.

O que deve-se ter sempre em mente é que o que ontem era revolucionário, hoje é chamado de old school. O que hoje é inovador, amanhã vai ser considerado antiquado. E geralmente negligenciado.

E pela minha experiência, tudo o que você negligencia no treino, vai te assombrar uma hora ou outra na competição. E todas as armas que você incorporar ao seu arsenal, podem e vão ser muito úteis para subjugar os que têm a cabeça fechada. O aprendizado não acaba nunca, sempre se lembre disso. Mantenha sempre o desejo de aprender que tinha quando deu seus primeiros passos no tatame.

Só não vá gritar no meio da luta quando estiver finalizando seu adversário. Você não é Renzo Gracie.

Faltam 11 dias.

Me segue lá no Instagram para acompanhar essa jornada no dia a dia: @jiujitsuaos40 !

***

Releia as colunas anteriores da série “Jiu Jitsu aos 40”:

Coluna 1 – Até que esse coroa é duro hein

Coluna 2 – Alô, é da casa do leão sem dentes?

Coluna 3 – Garçom, me traz um elefante!

Coluna 4 – Caindo pra dentro de 1000 Godzilas

Coluna 5 – Atropelado por um Bulldozer

Coluna 6 – Filhote de Panda no Liquidificador Aumenta o Gás?

Coluna 7 – Um Domingo rogergracie

Coluna 8 – Mestre, me arruma um salva-galos?

Coluna 9 – Coluna “Jiu Jitsu aos 40”: Ou “A Cela Escura”

***

Fábio de Jesus

 

  • Bruno Rossi

    boaa Fabinho!! ta chegando hein…11 dias ta ai ja!

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com