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Coluna “Jiu Jitsu aos 40”: Ou “Mestre, me arruma um salva-galos?”

Contam os mais antigos, que quando alguém se machucava na lendária academia da Figueiredo Magalhães, 414, havia duas possibilidades. Mestre Carlson Gracie, se julgasse que não era muito grave, chamaria o aluno e diria: “vem aqui que eu resolvo isso”, dando um puxão na parte que este alegava machucada, geralmente sem nenhum efeito terapêutico, mas extremamente eficaz para evitar episódios futuros de alarme falso. Se presumisse que a lesão era realmente séria, o salva-galos entrava em ação.

O salva-galos é um anti-séptico caseiro feito à base de ervas para tratar os ferimentos dos galos nas rinhas, e que o saudoso mestre se apropriou para cuidar dos alunos. Mestre Carlson era um aficionado por briga de galo, o qual considerava o mais valente exemplar de todo o reino animal. Dizem que quando aplicado, causava uma dor quase insuportável, mas que curava uma ampla gama de contusões.

Graças a Deus o tratamento das lesões do tatame evoluíram, e hoje há uma quantidade variadíssima de técnicas disponíveis. Com o passar dos anos, o corpo não se recupera da mesma forma que na juventude, e visitas ao fisioterapeuta passam a ser uma constante na vida do lutador. Pior ainda se você for competidor, caso em que os treinos tem que ser mais intensos, o que aumenta exponencialmente a probabilidade de lesão. Importante frisar que um ombro ou joelho avariados, além de limitar seu jogo e deixar você mais propenso a ser finalizado na hora da luta, mexem com o seu psicológico, que já entra no combate sabendo que você não está 100%. Não, você não é um samurai, essas coisas vão te atrapalhar sim.

Para quem treina para competir, a questão deixa de ser “se” você vai se machucar, e passa a ser “quando”. Infelizmente, é inevitável em esporte de contato praticado com intensidade. Sua atenção deve então estar voltada para evitar ao máximo as lesões. Se você compete, não pode se dar ao luxo de ficar no estaleiro perdendo dias preciosos de treino, enquanto seus adversários comem e respiram tatame.

Dessa forma, a sua primeira linha de defesa deve ser manter um corpo forte. Nunca gostei de musculação, mas faço sem reclamar porque é sem dúvida uma aliada importantíssima para blindar músculos e ligamentos. Procure um profissional qualificado que irá adaptar o seu treino às suas necessidades dentro do tatame.

A segunda linha de defesa é treinar de forma inteligente. Evite treinar com parceiros muito mais pesados, que além de não te ajudar a simular a realidade da competição, aumenta e muito o risco de lesão. Em épocas pré competição, eu busco treinar com caras de no máximo uma categoria acima da minha. Evite treinar além do que o seu corpo aguenta, respeite seus limites. Descanse quando seu corpo pedir, um corpo fatigado é mais suscetível a se lesionar. Siga uma alimentação balanceada condizente com a sua carga de treinamento e que permita seu organismo estar sempre bem nutrido. Se alguma articulação estiver em jogo, não tente resistir, mande o seu ego para bem longe e bata. Essa é a mais importante, vale imprimir, plastificar e colar na sua geladeira. Mande seu ego para bem longe e bata! Não sabote a si mesmo com orgulhos idiotas.

A terceira linha de defesa é ter um fisioterapeuta de confiança. Já perdi as contas de quantos milagres o Dr. Helmut Daltro fez, como um Sr. Myagi  da vida real curando o Daniel San aqui para prosseguir no torneio e vencer os adversários da Cobra Kai. Por diversas vezes achei que não conseguiria me recuperar a tempo e perderia o campeonato, mas sempre teve jeito, acho que ele deve usar algum golpe mental jedi nos tratamentos, só pode.

Outra dica: não seja um refém da lesão. Roberto Gordo, bicampeão mundial, aperfeiçoou a meia guarda de maneira revolucionária porque não conseguia fazer a guarda convencional graças a um joelho bichado. Seja criativo e não pare de treinar por completo, na maioria absoluta dos casos dá para fazer alguma coisa sem forçar.

E o mais importante de todos: deixe o salva-galos com os galos. Ou por outra: nem com eles. Lugar de galo é na panela.

Faltam 25 dias.

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Releia as colunas anteriores da série “Jiu Jitsu aos 40”:

Coluna 1 – Até que esse coroa é duro hein

Coluna 2 – Alô, é da casa do leão sem dentes?

Coluna 3 – Garçom, me traz um elefante!

Coluna 4 – Caindo pra dentro de 1000 Godzilas

Coluna 5 – Atropelado por um Bulldozer

Coluna 6 – Filhote de Panda no Liquidificador Aumenta o Gás?

Coluna 7 – Um Domingo rogergracie

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Fábio de Jesus

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