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Coluna: Jiu Jitsu aos 40 (Ou “Alô, é da casa do leão sem dentes?”)

Sábado de manhã, meu telefone toca, e atendo com uma voz de quem tinha sido atropelado por uma manada de rinocerontes. A “manada” em questão estava no treino da noite anterior, que de tão forte tinha deixado marcas indeléveis na minha já danificada carcaça. Do outro lado da linha meu interlocutor, uns dois ou três anos mais velho, me diz, no que na hora me parecia ser de uma lógica irrefutável: “Fábio, você tem que entender que a gente não tem mais idade para passar por isso. Nós somos leões sem dente. Deixa esse negócio de competir para a molecada nova.”

Desligado o telefone, não pude deixar de refletir por alguns momentos. O que leva um cara de quase 40 anos, que nunca foi um atleta profissional, a se submeter à carga de treinamentos e aos sacrifícios inerentes para se aventurar nos maiores campeonatos da arte suave?

Realmente, é uma decisão incompreensível para a maioria das pessoas. Numa idade em que costuma-se desacelerar, é complicado tentar explicar porque você não pode comer aquela pizza com queijo derretendo, ou porque não pode ir ao happy hour com os amigos. Essa indagação ganha contornos mais enigmáticos porque o lutador em questão não vive do jiu-jitsu, e precisa conciliar treino e preparação física com o trabalho.

Na verdade, considero essa volta às competições como um presente a mim mesmo. Poucas sensações são tão recompensadoras como comprometer a si mesmo com um treinamento exaustivo, abraçar uma mudança enorme de estilo de vida e poder ficar frente a frente no tatame com outro faixa-preta.

Mas esse é o meu porquê. Provavelmente se perguntarmos a 10 competidores, teremos 10 respostas diferentes. Diariamente observo muitos amigos de tatame me contando que são loucos para competir também. A todos esses, digo a mesma coisa: inscreva-se num campeonato. Não espere o momento perfeito, por que o momento perfeito não existe. Você sempre vai achar que podia ter treinado mais, feito uma dieta melhor, se esforçado mais um pouco. Todo mundo pensa isso. Simplesmente se inscreva e vá. Se não ganhar, volte para a academia, veja onde estão os erros, corrija e tente de novo. Se chegar lá e perceber que isso não é para você, sem problemas. Participar de campeonato de jiiu-jitsu não te faz melhor que ninguém e não é a coisa mais importante do mundo. Você está lá para curtir o momento.

E antes que me esqueça, esse amigo que me ligou decidiu aos 41 anos ser alpinista. Já escalou o Kilimanjaro, no Quênia, está indo para o Elbrus, na Rússia e o Aconcágua na Argentina. O desafio final será o Everest.

Realmente, os leões podem estar perdendo os dentes, mas quando seu rugido ecoa na floresta ainda provoca murmúrios de reverência.

Faltam 74 dias.

Me segue lá no Instagram para acompanhar essa jornada no dia a dia: @jiujitsuaos40 !

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Confira também as edições anteriores da Coluna “Jiu Jitsu aos 40”

Capítulo 1 – Até que esse coroa é duro hein

  • pedro granatto

    Sabe muito !!

  • Luis Fernando Silva

    Muito bom! Parabéns!

  • Jair Pereira Paim

    A idade, os problemas, o corre corre de todos os dias podem ser uma muravalha para alguns, para outros apenas um limite. Excelente texto para superarmos nossos ais, nossas queixas, e descobrir potencialidades inimagináveis. Ir além dos limites faz a vida valer a pena. Que possamos dizer como Ernest Hemingway: sem queixas atrás das portas.

  • Antonio Fontes Filho

    Isso meu Brother,
    Se não for agora, quando será?
    Só temos essa vida e temos que aproveitar ao máximo, pois não tem replay !!!!

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