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Coluna “Jiu Jitsu aos 40”: Ou “A Cela Escura”

Fabinho quando enfrentou o tri campeão mundial Bráulio Estima

 

A voz de Renzo Gracie, imprimindo  uma intensidade e paixão características em cada palavra, ecoa nos alto falantes da minha caixa de som: “Se cortassem minhas pernas e meus braços, e me trancassem em uma cela escura, onde eu fosse alimentado apenas o suficiente para não morrer de fome, depois de 20 anos quando abrissem a porta você veria um sorriso no meu rosto. Um homem que tem as memórias que eu tenho, que vive a vida que eu vivo, nunca pode estar triste.” Já ouvi esse trecho várias vezes, e sempre penso a mesma coisa ao final: E não deveria ser assim para todo mundo? Qual o sentido de ver os dias passarem de forma mecânica, sem se comprometer com os seus sonhos e sem tomar as rédeas do seu destino?

Quando conto minhas histórias aqui na coluna, esqueço de mencionar que decidi voltar às competições em janeiro do ano passado. Ou por outra: decidi competir regularmente, o que por uma série de fatores, como lesões, faculdade, trabalho, não pude fazer quando mais novo. E não se engane: por mais que seja recompensador e gratificante todo dia que eu acordo de manhã, nunca foi fácil. Nunca.

Afora as privações e sacrifícios de praxe, esbarro a todo momento em dificuldades cotidianas: como conciliar trabalho, família e amigos com uma vida de atleta? O primeiro passo é organizar um cronograma de cada semana. Meus horários são apertados, então por exemplo, procuro encaixar o treino físico no horário de almoço. Treino e depois como. Jiu-jitsu é de noite, e o kimono está sempre no carro. Se fico preso no trabalho até mais tarde não preciso passar em casa, vou direto. E não me dou a opção de não ir treinar. Simplesmente vou, não importa quão puxado tenha sido o dia. Encaro o treino como um presente que dou a mim mesmo. Um momento em que faço a minha higiene mental, cuido do corpo e revejo os amigos. Não há razão para não ir.

A dieta também é planejada semanalmente, de acordo com os objetivos: perder peso ou manter. Geralmente são pratos rápidos e fáceis de preparar, já deixo tudo no jeito no congelador no domingo. E mais importante, sigo à risca; com o tempo você acostuma a não comer o que não pode. Mesmo chocolate.

Outra coisa que não faço é me comparar com meus adversários, criando grilos desnecessários na minha cabeça. Conheço a maioria deles pelo menos de ver lutar, muitos competiram a vida toda desde que começaram a treinar. Muitos vivem do jiu-jitsu, muitos treinam em equipes grandes, alguns foram campeões mundiais, panamericanos e brasileiros nas faixas coloridas ou no adulto. Não fico pensando “ah, se eu tivesse mais tempo para treinar”, ou “ah, se eu treinasse só com faixas pretas”. Foco sempre no que está na minha governabilidade, que é o meu treino, minha dieta, minha evolução.

Se meu oponente foi campeão mundial ano passado, se compete a vida toda, se o kimono deles está cheio de patrocínios, o que eu posso fazer? Apenas uma coisa: esquecer tudo isso e cair para dentro deles com tudo. Entro sempre com uma férrea e obstinada vontade de vencer. E quando eu perco, não fico criando desculpas, com auto piedade, justificando a minha performance pela minha realidade ser diferente da deles. Simplesmente volto para a academia e busco corrigir o que deu errado.

O que eu quero dizer é que a vida de todo mundo é cheia de dificuldades, qualquer que seja a maneira que você a viva. Indo atrás do que você ama fazer, ou não indo, você tem família para cuidar, contas para pagar, pepinos no trabalho para resolver. Dias bons e ruins. Viver a sua paixão não vai deixá-la mais fácil, pelo contrário, na maioria das vezes vai te criar problemas que não teria se ficasse na sua zona de conforto. Mas como você iria sobreviver, se te colocarem de repente numa cela escura? Ou ainda: será que a cela escura não está dentro de você?

Faltam 18 dias.

Me segue lá no Instagram para acompanhar essa jornada no dia a dia: @jiujitsuaos40 !

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Releia as colunas anteriores da série “Jiu Jitsu aos 40”:

Coluna 1 – Até que esse coroa é duro hein

Coluna 2 – Alô, é da casa do leão sem dentes?

Coluna 3 – Garçom, me traz um elefante!

Coluna 4 – Caindo pra dentro de 1000 Godzilas

Coluna 5 – Atropelado por um Bulldozer

Coluna 6 – Filhote de Panda no Liquidificador Aumenta o Gás?

Coluna 7 – Um Domingo rogergracie

Coluna 8 – Mestre, me arruma um salva-galos?

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Fábio de Jesus

  • Antonio Fontes Filho

    É isso Brother
    Se formos esperar que tudo esteja no lugar não fazemos nada.
    Por essas e outras tenho a certeza de muitos anos de tatame e muitos rolas com vc meu Brother

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