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BJJForum Entrevista: Erin Herle

Erin Herle

Erin Herle é mais um nome da nova geração do Jiu-jitsu feminino. Recém graduada faixa preta por Rubens Charles Cobrinha,  a atleta da Alliance é presença frequente nas competições do circuito da IBJJF e da UAEJJF. Além de atleta de Jiu-Jitsu, Erin Herle também é jornalista e criou a campanha #submitthestigma, que aborda o tratamento e discussão de transtornos mentais como: Depressão, ansiedade e déficit de atenção. Confira a entrevista que o BJJForum fez com a atleta no final do ano de 2017.

Olá, Erin, bem-vinda ao BJJForum! Pra começarmos poderia se apresentar para o público brasileiro?

Meu nome é Erin Herle e sou faixa-marrom de Marcelo Garcia, mas atualmente estou treinando com o Rubens Charles (Cobrinha). Comecei a praticar Jiu-Jítsu em 2009 depois de ter sido levada para assistir o Pan de 2008 em Carson, Califórnia. Lá eu pude ver as mulheres competindo e decidi fazer o mesmo, já que eu sempre fui uma menina que gostava de brincar com os meninos de brincadeiras digamos, menos delicadas. Então, depois de superar minhas ansiedades, fiz minha primeira aula e fiquei simplesmente viciada. Eu não sabia o quão especial era meu instrutor até jogar o nome dele no Google: Rômulo Barral. Treinei com ele em Encinitas, Califórnia, até depois do Pan de 2011, quando decidi ir treinar com o Cobrinha em sua nova academia no sul de Hollywood. Cerca de um ano depois recebi minha faixa-roxa. Então me mudei para Nova Iorque em 2014 para ficar perto do meu namorado na época e recebi minha faixa-marrom de Marcelo Garcia em agosto de 2015. No final de 2016, voltei para Los Angeles e voltei a treinar com a Cobrinha e estou lá desde então.


Você é bem conhecida na comunidade do Jiu-Jítsu como uma fotógrafa e jornalista que também compete, mas agora você está focando em competições, você acha que será diferente do que você já faz agora?

Desde que eu voltei a morar em Los Angeles, meu foco tem sido totalmente em mim. Eu aproveitei a oportunidade de fazer meu nome, focar em treinos, competir no nível mais alto, dar mais seminários, etc. Eu posso fazer isso pois graças à minha mãe eu não pago aluguel, e faço uma grana escrevendo para o FloGrappling. Quando eu trabalhava para a Graciemag de 2012 à 2015, eu ficava cobrindo campeonatos e meus dias eram basicamente nas beiradas dos tatames e as noites no hotel editando fotos e escrevendo a cobertura do dia. O mais difícil era quando eu competia no mesmo campeonato que eu ia cobrir. Eu gosto de cobrir campeonatos e dar a oportunidade dos atletas terem seu espaço na mídia, mas eu não conseguia saciar minha vontade de estar nas notícias pelo mesmo motivo que eles. Então comecei a me dedicar mais e queria que meus treinadores, professores, patrocinadores, mentores reconhecessem isso.

Twoooooo ✌🏻 #hyperfly #mundials2017 #iamhyperfly #ycth

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Você treinou com duas das maiores lendas do Jiu-Jítsu, Marcelo Garcia e Cobrinha. Como é o sentimento de ser sortuda assim?

Não podemos esquecer que eu comecei treinando com Rômulo Barral, outra lenda. Eu sou muito grata por todo o meu tempo como cada um deles, mas na verdade eu só fui sortuda. Eu cheguei até o Rômulo porque a academia dele era a que ficava mais perto do meu emprego na época. E aconteceu de o Cobrinha abrir a academia dele em Los Angeles. Então eu comecei a sair com um cara de Nova Iorque e já serviu de motivo para chegar ao Marcelo, sem contar o fato de eu já ser uma atleta da Alliance. Sou sortuda por outros motivos também: poder lutar nos maiores campeonatos, Mundial e Pan, todos os anos porque o ginásio onde os eventos acontecem é praticamente nos fundos da minha casa. Mas todos os lugares tem seus prós e contras. Não é necessariamente com quem você treina. É como você se relaciona com a equipe e a atmosfera, quanto investimento cada um dá no seu treino e no deles. Então sim, sou sortuda de ter esbarrado com esses três professores maravilhosos, mas isso não significa que eu tive um caminho fácil pra chegar onde cheguei. Mas ajudou, haha!


Você está lançando seu primeiro DVD (Flamingo Knee Slice and Spider Trap pela Digitsu). Qual o foco das técnicas apresentadas nele?

Meu DVD mostra técnicas que eu tenho feito praticamente desde a faixa-branca e lapidei na faixa-roxa. Eu não era o que poderia se chamar de passadora até o final da faixa-azul e não tinha confiança em passar a guarda em competições até a faixa-roxa. E isso só foi possível porque aprendi a passagem cruzando o joelho. Eu percebi que se eu conseguisse baixar bem, ser pequena, estar próxima do tronco da adversária, a passagem seria muito mais fácil. Então a entrada é a parte mais importante e isso que eu passo no meu flamingo. No meu DVD eu chamo ele de Angry Bird porque ele é que nem o pássaro amarelo do jogo, que cai rápido uma vez que você lança ele. Quanto mais longe você deixar seu joelho e o mais próximo você pode pegar a esgrima e “abraçar”, mais segura será a sua passagem. E as técnicas que eu uso para manter o cem quilos logo que você passa são técnicas do Cobrinha. Eu adicionei meu toque nelas, e elas realmente funcionam para qualquer tipo de passagem, não apenas cruzando o joelho. Em relação as técnicas de guarda aranha, elas vem do meu tempo de faixa-branca, quando tinha aulas com o “homem guarda aranha”, Rômulo Barral. Costumo dizer que a primeira guarda que aprendi foi aranha porque eu costumava treinar tanto e como também tinha caras pesados como parceiros de treino quando comecei, como o Orlando Sanchez, era a guarda perfeita pra eu manter distância e espaço e realmente controlar o peso dos meus adversários. Também mostro raspagens e ataques trazendo o oponente pra frente e dali vou para a guarda x que é usada a partir da entrada da guarda aranha. É um compilado do jogo que eu realmente uso e você pode ver muitas das técnicas se você pegar algumas lutas minhas para assistir.

Você criou a campanha #submittheestigma (#finalizeoestigma, em tradução livre) que promove discussão e educação para transtornos mentais. Pode falar um pouco mais a respeito?

A campanha #submittheestigma começou após meu pai cometer suicídio em julho de 2015. Isso me afeitou de tantas formas não só porque meu pai morreu, mas porque toda minha vida eu tinha lutado contra transtornos mentais. Meu pai nunca foi diagnosticado mas nós sabíamos que ele sofria de algum transtorno mental e 90% dos suicídios no mundo são causados por problemas assim. Ele não foi tratado, no entanto eu sempre dei importância para o bem estar mental e usei o Jiu-Jítsu como parte da minha terapia. Eu sempre achei que apoio social, atividade física, estabelecimento de metas, crescimento constante e consistência deixava minha mente saudável. Isso me ajudou com a depressão, ansiedade e TDAH. Eu sei que isso também é uma realidade para muitas pessoas na comunidade do Jiu-Jítsu. Então eu comecei um gofundme (site de financiamento coletivo), para a National Alliance on Mental Illness (Aliança Nacional de Transtornos Mentais, em tradução livre) em nome do meu pai e nós levantamos mais de US$6500. Desde então comecei a fazer algumas placas a mão para levar e mostrar no pódio que diziam: “#Submit the Stigma of Mental Illness” (#Finalize o Estigma de Transtornos Mentais, em tradução livre) e isso chamou atenção. Alguns grandes nomes do esporte levaram a placa para o pódio no Mundial e Pan de 2015 e no Europeu de 2016. Eu criei um site, realizei seminários com atletas de ponta e fiz patches para pessoas usarem e passar a mensagem adiante. Atualmente virou uma organização sem fins lucrativos com mais merchandise e mensagens divulgadas diariamente. Quanto mais falarmos de transtornos mentais, mais vamos perceber que é uma doença tão comum como diabetes, ou qualquer outra condição genética que tenha por aí. Existe apoio profissional disponível e nós sempre podemos ajudar alguém na comunidade para ter certeza de que ninguém sofra sozinho.

Você vai ficar um mês aqui no Brasil, como está sua agenda e o que você espera? (Erin só pôde responder as perguntas depois de já ter ido embora)

Minha estadia no Brasil foi tão incrível que eu adiei minha volta duas vezes. Primeiro fui no Rio de Janeiro e treinei na Alliance com o Alexandre “Gigi” Paiva, que eu conheço há anos por ser membro da Alliance e ver ele quando visitava o Cobrinha. No encontro com meu amigo americano Nico Ball, o cara por trás do Favela Jiu-Jitsu, eu pude visitar as favelas do Cantagado e da Cidade de Deus para treinar nos projetos sociais lá. Também visitei a Checkmat e treinei com a Gabi Fetcher e o Jonatas Gomes.

Viajei para São Paulo depois de uma semana e meia e treinei na matriz da Alliance em São Paulo com Fábio Gurgel e meu ídolo de longa data, Michael Langhi. Eu conhecia mais gente lá porque tinham mais competidores e eles costumam visitar a academia do Cobrinha. Também visitei a NS Brotherhood para ver minha amiga Luiza Monteiro e também treinar com o Leandro Lo, o que foi uma grande experiência. Aqui vai o segredo, você precisa ter certeza de que ele vai estar bem cansado de todos os rolas que ele deu no treino enquanto ele estiver em um período de corte de peso, aí você implora para ele rolar com você. Aí você ataca! Hahaha!

Eu voltei para o Rio pra ficar mais seis dias e fiquei junto com a minha mais nova melhor amiga Stephanie Pina para irmos ao Shooto assistir a segunda luta de MMA do Rodolfo Vieira e o estréia do faixa-preta da Alliance, Bruno Malfacine no MMA profissional. De lá, vi um cara de Belo Horizonte que me convidou para visitá-lo. Eu sempre quis visitar lá, então com minha espontânea naturalidade depois de voltar para São Paulo, voei para Belo Horizonte dois dias depois.

Acabei ficando três semanas lá. Eu dei um seminário na Gracie Barra Floresta e treinei um dia na Gracie Barra BH (onde meu primeiro professor, Rômulo Barral, treinou com o Draculino antes de se mudar para os Estados Unidos). Então como nunca tinha visitado o Brasil antes, BH foi uma aula de história pra mim. Inclusive encontrei com pessoas que eu não via desde a faixa-branca ou azul. Eu visitei três cachoeiras, vi muita gente que me tratou como família, e eu fui competir em um campeonato no interior de Minas Gerais chamado Liga Brasileira de Jiu-Jítsu. No final da minha viagem, nós fomos para São Paulo para o São Paulo Open da IBJJF. Acabei tendo duas lutas no absoluto de kimono para o ouro, mas não tive luta no meu peso nem no peso e absoluto sem kimono. Mesmo não tendo muitas adversárias na faixa marrom naquele final de semana, ainda assim foi um prazer lutar em um campeonato de nível internacional no Brasil. Eu voltei pra casa dia 18 e até agora estou com saudades daí, hahaha!

Tem alguém que você gostaria de agradecer?

Eu gostaria de agradecer minha mãe por manter o forte (a casa dela, onde eu resito) enquanto eu estou sempre fora. Meus patrocinadores Hyperfly, Digitsu, Lazy Lover Jiu-Jitsu, Brick Crossfit e Lamonica’s NY Pizza (Tio John pagou pela minha passagem de volta do Brasil).

Eu também quero agradecer o Gigi, Victor Genovesi, Jair Neto, Bruna, Stephanie, Hywel Teague, Nico Ball, Gabi Fechter, e outros do Rio. Fábio Caloi por me oferecer uma casa em São Paulo e também Fábio Gurgel e Michael Langhi, por me tratarem como uma aluna deles na Alliance SP. Meus amigos Gabriel, Caio e Rafael Paganini por me levarem por aí. Parceiras de treino Juliana, Renata Marinho, Léo, Gustavo e Magda Maron, entre outros. Luiza e Leandro pela hospitalidade na Brotherhood. Minha família mineira: Matheus, Saul, Corvo, Eduardo, Antonio, Japonesa, Papagaio, Bago, Bruna, Joanna e outros.

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