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Após superar lesões, mas ainda sem patrocínio, Renato Cardoso desabafa: “Amo meu país, mas está cada dia mais difícil viver do Jiu Jitsu aqui”

Renato Cardoso finaliza Erberth Santos pelo Floripa Open

Renato Cardoso, atleta da Alliance e um dos melhores competidores de Jiu Jitsu ainda radicado no Brasil foi do céu ao inferno em 2017. Após emendar bons resultados desde 2015 em todos os grandes campeonatos da arte suave, uma grave lesão atrasou a evolução do faixa preta de 29 anos.

Pouco após o Mundial IBJJF de 2017, Renato Cardoso realizou um seminário beneficente em sua terra natal, Caruaru, para ajudar um de seus alunos que precisava de dinheiro para um tratamento médico. Durante este seminário um colega por acidente caiu em cima de seu ombro causando uma Luxação Acrômio-Clavicular grau 5, com rompimento de ligamentos, que precisou de intervenção cirúrgica (nosso colunista médico, Dr. Thairon Medeiros falou mais sobre este tipo de lesão neste artigo).

Mas o que era ruim, ficou ainda pior. Durante o pós operatório uma infecção surgiu no local da incisão causando necrose muscular, e o atleta precisou mais uma vez retornar à mesa de cirurgia para um novo procedimento, que envolveu retirada de parte do músculo deltoide. Os meses seguintes foram de muitas dores e dificuldades, mas Renato parece ter deixado esse capítulo difícil para trás, e provou que vem em 2018 para disputar mais uma vez entre os melhores.

No entanto, hoje enfrenta outro grave problema, recorrente entre os atletas de Jiu Jitsu: a dificuldade em arrumar patrocinadores.

Batemos um papo com ele sobre esses momentos, a dificuldade de viver do Jiu Jitsu no Brasil e muito mais. Confere aí.

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BJJ Fórum: Renato, fala um pouco pra gente sobre essa lesão que você sofreu, e como foi a recuperação.

Renato Cardoso: Foi um período muito difícil, pois no intervalo de um ano eu tive três cirurgias, uma na mão e duas no ombro. A pior delas foi a cirurgia na clavícula. Eu estava dando um seminário beneficente e tive essa lesão, que foi a mais séria da minha carreira. Quinze dias após a cirurgia tive uma complicação e descobri a infecção hospitalar, precisei operar mais uma vez e retirar parte do tecido muscular. A expectativa era voltar a lutar em 6 meses, mas meu médico falou que poderia levar até um ano. Graças a Deus, minha esposa, meus amigos e meu fisioterapeuta voltei a competir em apenas 3 meses e meio.

Mas a recuperação foi difícil demais, eu tinha muita insegurança se eu ainda seria o mesmo de antes e queria voltar o mais rápido possível para não perder a confiança, mesmo sabendo que não voltaria nem na metade do que posso ser como atleta no curto prazo. Mas sei que sem Deus nada é possível e graças a ele estou de volta firme e forte.

Hoje você sente que já está no mesmo nível técnico e físico que estava antes de se machucar? O tempo parado mudou de alguma forma seu jeito de treinar ou pensar o Jiu Jitsu?

Eu nunca digo que estou na minha melhor forma física, pois a cada dia quero melhorar ainda mais. Mas estou cada vez mais maduro tentando ser um atleta mais técnico, com um jiu jitsu completo, sem perder minha essência que é a agressividade, mas tendo também em vista que às vezes preciso ser estratégico, que nem sempre dá pra finalizar todas as lutas. E no geral, estou tentando ser uma pessoa melhor pois além de atleta hoje sou professor. Busco ter menos ego nos treinos, às vezes ceder as posições, aprender a perder na academia para evoluir e até evitar lesões.

Uma coisa que realmente mudei neste período que não pude treinar foi seguindo uma orientação do meu preparador físico, que me mandou passar a estudar mais meus adversários antes das lutas, e venho tentando fazer isso e percebendo uma boa diferença.

No último final de semana você conseguiu seu primeiro duplo ouro após a lesão, no Floripa Open, tendo inclusive finalizado o Erberth Santos com uma chave de braço da guarda, que era favorito na visão de muitos. Como você se sentiu após essa luta? Acha que foi a prova final de que você está de volta e que pode bater de frente com qualquer um?

Fiquei muito feliz pois foi o primeiro campeonato que da IBJJF que ganhei peso e absoluto com e sem kimono, então fiquei contente com esses quatro ouros. Acho que pra mim não tem isso de prova final, estou treinando igual a todo mundo, como sempre treino o ano todo, vivo pra isso então não fiquei surpreso de ter ganho do Erberth, até por que nossas lutas sempre foram de igual pra igual. Mas claro que ganhar do favorito, ainda mais finalizando, sempre tem um gostinho especial.

Ainda no Floripa Open, você e o Otávio Nalati decidiram fechar a final do absoluto. Muita gente criticou a decisão pelo fato de vocês representarem equipes diferentes (Renato é da Alliance, e Nalati luta pela Guigo Jiu Jitsu). Explica para os nossos leitores o que motivou vocês a fecharem, já que no passado vocês inclusive lutaram algumas vezes.

Legal você perguntar sobre isso, pois eu tenho um carinho muito especial pelo Tatá. Ele foi uma pessoa muito especial na época da minha lesão. Quando operei minha esposa passava o máximo do tempo que podia comigo, mas às vezes ela precisava ir trabalhar, e eu não podia ficar sozinho. E o Tatá foi uma das pessoas que mais ficou comigo nessa fase. Diversas vezes ele estava lá me ajudando em tudo, com alimentação, me ajudando para ir no banheiro, a tomar os remédios, e várias outras coisas. Então ele foi um super amigo, um verdadeiro irmão pra mim e hoje somos muito próximos, ele frequenta minha casa e eu a dele independente de bandeira da equipe.

Além disso, falta só um mês para o Brasileiro, e dois meses para o Mundial, então nós achamos que não fazia sentido arriscarmos uma lesão. Por tudo isso, e sendo um torneio que não pagava em dinheiro nem fazia parte do Grand Slam, optamos por não lutar e ele me cedeu o título também por eu estar hoje sem um patrocinador oficial.

Foi mais uma forma de ele me ajudar novamente como amigo. Então devo um absoluto em um open da IBJJF a ele por isso, e muito mais por tudo que ele já fez por mim.

Esse é um ponto complicado, hein. Desde que se recuperou da lesão, você vem conseguindo resultados expressivos, como a prata no Europeu, ouro no ACB e ouro duplo no Floripa Open, além de todo o nome que já fez no esporte nesses 6 anos como faixa preta. Ainda assim, você hoje está sem um patrocinador de kimonos. Como é para um atleta do seu nível, depois de tantos títulos, se ver neste situação?

É difícil pra nós pois eu vivo disso, o Jiu Jitsu é minha vida e minha profissão, é como pago minhas contas. E acho que as empresas precisam entender que infelizmente lesões fazem parte da vida de um atleta. Hoje eu estou buscando alguma empresa que se interesse pela minha imagem, pelo meu currículo e pelo meu trabalho, para podermos fazer uma parceria justa e vantajosa para os dois lados. Ficar sem patrocínio é muito difícil, pois gastamos muito viajando para lutar campeonatos, muitas vezes mais de uma vez por mês, pagar inscrições, alimentação, material de treino, etc. E a realidade atual do nosso esporte é que a maioria dos campeonatos não paga premiação em dinheiro.

O que muitos de nós acabamos fazendo, e eu fiz bastante no começo da minha carreira, é lutar torneios menores quase todo final de semana para ganhar 500, 700 reais em dinheiro. Mas nosso corpo é nosso instrumento de trabalho, e isso acaba sendo desgastante com o tempo, fora o risco de nos lesionarmos a cada vez que pisamos no tatame. Mas confio no meu trabalho e em Deus, e sei que em breve estarei com uma marca para defender da melhor forma possível.

Você está prestes a completar 6 anos como faixa preta competindo em alto nível. Mas ao contrário de muitos, você não optou por buscar a vida fora do Brasil. Você chegou a pensar, ou ainda pensa nesta possibilidade? Acha que é mais fácil viver como atleta em outros países?

Pois é, essa é uma parada muito complicada… Lá fora nós atletas somos bem mais valorizados, e aqui no Brasil está cada vez mais difícil. Eu amo meu país e não queria sair daqui pra ir morar fora, mas apenas para lutar, dar seminários e viajar com a família. Se você parar pra olhar, restam cada vez menos atletas competidores vivendo aqui no Brasil. Em outros países as possibilidades de ganhar dinheiro são mais variadas. Existem muitas marcas fortes dispostas a investir em atletas, existe uma procura maior por aulas particulares e seminários, há também cada vez mais eventos de lutas casadas pagando bolsas e prêmios em dinheiro.

Por isso, do jeito que as coisas estão caminhando não sei até quando ainda vai dar pra continuar morando aqui, pois preciso pensar no meu futuro, na minha família e na minha carreira. E o mesmo vale para diversos outros atletas.

Obrigado por mais uma vez dar essa moral pra gente, Renato. Algum recado final pra galera que segue seu trabalho ou algum agradecimento?

Primeiramente queria agradecer a vocês do BJJ Fórum pela oportunidade de deixar agente divulgar nosso trabalho. Queria também agradecer aos meus atuais apoiadores Bullterrier e Stormstrong, à minha esposa por sempre estar ao meu lado nos momentos bons e ruins, à minha família, aos meus alunos e meus parceiros de treino. Osss

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