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Antidoping no Jiu Jitsu: mais hipocrisia do que eficiência

A “bomba” desta semana foi o anúncio feito por Paulo Miyao em seu Instagram de que ele foi flagrado no teste antidoping feito pela USADA em parceria com a IBJJF durante o Mundial de 2016. Com isso, Paulo foi suspenso por 2 anos, e perderá o título mundial conquistado naquele ano. Usamos “bomba” entre aspas pois essa informação já era objeto de fortes rumores há algum tempo, tanto que havíamos citado neste artigo que em breve outro grande nome da arte suave perderia seu título.

Mas isso todo mundo já sabe, e não pretendemos revisar neste texto. A ideia aqui é outra: analisar a forma como os testes antidoping são realizados no Jiu Jitsu, e demonstrar os motivos que fazem deste procedimento uma tremenda hipocrisia.

Há poucas horas, Rodrigo Cavaca abordou “o elefante na sala” (expressão utilizada para um problema ou situação constrangedora que todos obviamente conseguem enxergar, mas fingem não estarem percebendo) em sua conta no Instagram:

“SEJAMOS JUSTOS! Hoje foi colocada a público a notícia em de que o atleta Paulo Miyao foi suspenso pela USADA por uso de substância ilegal no mundial de 2016, com isso foi suspenso por 2 anos das competições oficiais. Gostaria de colocar meu ponto de vista e fazer uma pergunta, primeiro, esse doping é muito falho, concordo que o esporte está evoluindo, mas esse sistema de fazer o exame somente para o campeão mundial, e entregar o título ao vice campeão, isso é completamente errado, pois o vice campeão não teve que ser testado, assim como os outros dois semi finalistas, sabemos que custa muito caro o exame, mas se é para fazer doping e ser justo, tem que haver exames para todos os 4 finalistas, pois desse jeito que está, fica fácil principalmente para quem sabe que não tem chances reais de conquistar o título e usa de várias substâncias ilegais para muitas vezes atrapalhar a caminhada de quem busca o título. Agora a pergunta para que todos possam refletir e não julgar o Paulo e outros atletas que passaram por isso.

QUEM NUNCA USOU SUBSTÂNCIA PROIBIDA DURANTE A CARREIRA?

Não precisam responder, apenas reflitam!”

Rodrigo Cavaca tem toda razão. Qual o sentido de se fazer antidoping de maneira ineficiente? E por que deveríamos condenar um atleta flagrado no exame, quando a prática de usar substâncias proibidas ainda é tão comum no Jiu Jitsu?

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Paga-se caro pelos testes não em nome da ética, justiça esportiva ou idoneidade moral do torneio, mas sim pela percepção de integridade na imagem comercial da Federação que o teste traz. À esposa de Julio César na Roma antiga foi dito que “Não basta ser honesta, precisa parecer honesta” quando seu nome teria sido envolvido em um suposto caso de infidelidade.

No caso do antidoping na IBJJF, parece haver uma inversão: “Basta parecer honesta, mesmo não sendo”.

Destarte temos que fazer uma ressalva: não estamos defendendo o uso de substâncias não permitidas buscando melhora de performance esportiva, de forma alguma. O que vamos apontar aqui é que o modelo de antidoping atualmente implantado pela IBJJF é ineficiente, pois permite que os atletas facilmente driblem os testes, além de injusto,  pois pune de maneira desproporcional alguns, sem testar diversos outros, tornando-os “bodes expiatórios” e exemplos midiáticos.

Mas chegaremos lá. Vamos por partes.

I – Histórico do Antidoping no Jiu Jitsu

Após muitos anos de reclamações e acusações de uso de esteroides anabolizantes e outros produtos para aumento de performance entre atletas do Jiu Jitsu, a IBJJF anunciou no final de Janeiro de 2013 que passaria a realizar testes antidoping em parceria com a USADA nos principais torneios realizados nos Estados Unidos, o Panamericano e o Mundial.

A notícia pegou muitos de surpresa, pois o primeiro torneio a implementar estes controles seria o Panamericano de 2013, menos de 2 meses após o anúncio oficial da IBJJF. À época, diversos competidores que tinham o hábito de lutar quase tudo, talvez por coincidência, abriram mão de lutar o Panamericano.

De lá pra cá, Paulo Miyao foi o quinto lutador a ser flagrado por doping pela IBJJF. Gabi Garcia (Mundial de 2013), Felipe Preguiça e Bráulio Estima (Mundial de 2014) e Leonardo Nogueira (Mundial de 2016) já haviam sido punidos.

E aí é que tudo começa a ficar bizarro e sem sentido.

II – Primeiro problema: somente os campeões são testados. E ainda assim, nem todos…

Todos da lista acima perderam seus títulos mundiais nos anos em que falharam no teste da USADA, e os segundos colocados passaram então a ser os novos campeões. Ou seja, o campeão perdeu o ouro por ter sido flagrado no antidoping para outro atleta que nunca foi submetido ao mesmo teste!

Quem garante que o vice-campeão estava “limpo”? Ou que os terceiros colocados passariam no mesmo teste?

A IBJJF anunciou em 2013 que os testes seriam realizados sobre os campeões, apenas na faixa preta. Porém analisando os “Annual Reports” da USADA para 2015 (página 27), 2014 (página 23) e 2013 (página 15) é possível perceber listada a quantidade de testes que a agência fez em atletas de Jiu Jitsu: 20 em 2013, 10 em 2014 e 10 em 2015.

Ora, apenas na faixa preta adulto, existem 19 categorias de peso em disputa: 10 entre os homens e 9 entre as mulheres. Caso estejam corretos, os números divulgados pela USADA deixam claro que é impossível todos os campeões e campeãs mundiais tenham sido testados em 2014 e 2015. Além disso, percebe-se também que apenas em 2013 dois torneios tiveram antidoping, o Mundial e o Panamericano. De lá pra cá, apenas o Mundial manteve os testes.

Entramos em contato com alguns atletas campeões mundiais, que nos informaram que nem todos os campeões são testados. A agência seleciona aleatoriamente alguns campeões e campeãs para o teste durante o evento. Dentre os atletas com quem falamos, nenhum havia sido testado no Mundial, e apenas um havia sido testado no Panamericano 2013.

Desta forma, as informações que temos são suficientes para afirmar que se o objetivo é termos um esporte limpo, os testes não chegam nem perto de abranger a amostra necessária de competidores. Se o campeão cair, aquele que herdará o título precisa sim ser testado! Homens e mulheres precisam ser testados na mesma proporção! E alguém acredita que nas faixas coloridas não encontraríamos diversos atletas que falhariam nos testes?

Na prática estão usando alguns poucos atletas que de fato erraram ao tentarem burlar a regra, como estandartes de uma luta hipócrita contra o doping. Um atleta é flagrado e exposto como exemplo, enquanto quase nenhum esforço é feito para identificar também as outras possíveis centenas que violaram as mesmas regras.

Até 2013, quando não existia antidoping no Jiu Jitsu, o uso de anabolizantes sequer chegava a ser um tabu entre os competidores e praticantes. A maioria das pessoas certamente já presenciou conversas e situações onde substâncias para melhora de performance eram discutidas abertamente.

Mas será que após o início destes testes, será que o cenário mudou muito? Creio que não. A maioria não deixou de usar, apenas passou a fazer de forma inteligente, conforme abordaremos no próximo ponto.

III – Segundo problema: o sistema de testes atual é facilmente burlado com planejamento profissional

O erro mais comum quando se fala de drogas para melhora de performance é acreditar que seu uso se dá apenas para ganho de massa muscular ou força  na hora da luta. Até por isso a surpresa quando alguns “magrinhos” como Paulo Miyao são flagrados.

Na verdade, o uso destas substâncias em grande parte das situações não busca estes ganhos diretamente, mas sim possibilitar um melhor rendimento nos treinos. Ganho de força, melhor recuperação muscular, maior resistência do corpo às atividades físicas e às lesões, são todos efeitos que permitem ao atleta atingir seu melhor desempenho esportivo.

Ao invés de treinar 4 horas por dia, o atleta passa a conseguir treinar 6 horas, e estar recuperado no dia seguinte,sem dores ou lesões. Durante um processo de alguns meses, o quanto de vantagem todo esse treino a mais irá representar?

E é exatamente por isso que os procedimentos de antidoping em esportes mais desenvolvidos, como as modalidades olímpicas, futebol, ciclismo e até o MMA, contam com testes surpresas, dentro dos períodos de treinamento dos atletas.

Para ser exato, o UFC implantou em parceria com a USADA durante o ano de 2015 uma significante mudança procedimental: os lutadores não seria mais testados apenas na data de suas lutas, mas também durante seus períodos de treinamento, de forma surpresa e aleatória. A qualquer momento um representante da USADA poderia aparecer na academia onde ele estava e exigir uma amostra para teste.

O resultado foi bastante claro para os fãs de MMA: uma explosão no número de atletas flagrados,  diversas lutas canceladas antes de acontecerem e principalmente uma queda acentuada e irreconhecível na performance de diversos lutadores (Chris Weidman e Johnny Hendricks talvez sejam os melhores exemplos). Em alguns casos, a mudança no físico dos atletas chega a chamar a atenção após o cerco apertar.

O que isso quer dizer para o Jiu Jitsu? É bastante simples. Se um atleta sabe que será testado apenas uma vez no ano, caso seja campeão, no último final de semana de maio, isso dá a ele 364 dias para programar seu uso de drogas de aumento de performance de forma a chegar com o corpo limpo na data do Mundial IBJJF.

Uma busca simples no Google permite facilmente encontrar o tempo que diversas substâncias demoram para sair do corpo, ou seja, o tempo que eles estão sujeitas a serem acusadas em um antidoping. Há anabolizantes que levam mais de um ano para desaparecerem, enquanto outros apenas algumas semanas.

Se um leigo tem acesso a essas informações, imaginem um profissional. Existem um grande mercado comercial de médicos especializados em atletas de alta performance com conhecimento vasto de substâncias e práticas que permitem driblar os testes mais complexos. Acima usamos uma foto de Lance Armstrong, que um dia foi considerado um dos maiores atletas de todos os tempos, mas acabou banido do esporte e perdendo todos os seus títulos após comprovarem que ele se dopou durante grande parte de sua carreira, mesmo tendo passado rotineiramente por testes durante esse período, que nunca acusaram nada contra ele.

Nos mais diversos esportes existem estratégias para evitar o flagrante, das mais complexas como transfusões de sangue, uso de urina sintética e outras substâncias químicas nas amostras, até as mais simples, como subornos e uso de amostras de outras pessoas. E Armstrong é apenas um de diversos exemplos de escândalos de doping. A equipe de atletismo da Rússia foi excluída das Olimpíadas do Rio após descobrirem um esquema de doping institucionalizado. A equipe de 4x100m da Jamaica perdeu o ouro olímpico recentemente em um escândalo semelhante.

 Ora, se em esportes com controles antidoping muito mais completos que o Jiu Jitsu há diversos casos de pessoas e instituições que passaram anos burlando os testes, imaginem o quão fácil é para os atletas da arte suave conseguirem junto com seus médicos, nutrólogos e preparadores físicos programar seus “ciclos” durante o ano de forma a maximizar os rendimentos de seus treinos e ainda assim chegarem no Mundial sem rastros de substâncias não permitidas em seu corpo?

Por este motivo, entendo que a prática de realizar um teste em data certa e previsível torna o antidoping praticamente simbólico no Jiu Jitsu. Acabarão por serem pegos apenas aqueles que cometerem erros em seu planejamentos ou que não busquem apoio profissional adequado.

Mais uma vez, a impressão que fica é que a ideia é apenas fazer parecer que há uma preocupação e um combate ao uso do doping, mas sem realmente buscar fechar o cerco sobre a prática.

Foto de Lucca Atalla/Galerr

IV – Terceiro Problema: as punições têm sido pesadas e desproporcionais

Jon Jones recebeu uma suspensão de um ano após falhar seu último teste na USADA. Brock Lesnar, após acusar testosterona sintética em sua luta contra Mark Hunt, foi suspenso por um ano. Yoel Romero foi flagrado no doping pela USADA, condenado a uma suspensão de 2 anos, posteriormente reduzida para seis meses. Eu poderia citar dezenas de outros exemplos até de outros esportes, como a tenista Sharapova que foi suspensa por 15 meses.

Os atletas de Jiu Jitsu flagrados pela USADA receberam quase todos penas mais altas: Paulo Miyao de 2 anos, Bráulio Estima de 2 anos, Leo Nogueira de 2 anos, Felipe Preguiça de 1 ano. Esses prazos começam a contar após a coleta da amostra para teste, e os atletas perderam os títulos mundiais referentes aos testes.

O calendário do Jiu Jitsu não é como o do UFC ou tênis, e gira basicamente em torno do Mundial IBJJF. Ou seja, uma punição de 2 anos, somada à desclassificação no Mundial onde foi flagrada, tira a possibilidade do atleta ser campeão Mundial por 3 anos, um tempo que parece bastante alto considerando que o auge físico dos atletas de Jiu Jitsu não costuma ser tão longo quanto em outros esportes (exceto por fenômenos como Rubens Cobrinha).

Mas será que essas punições guardaram proporção com o fato de todos eles terem violado as regras apenas pela primeira vez, em um esporte que até ontem não possuía qualquer espécie de controle?

Mais uma vez, o que parece é que há uma tentativa de fazer estes casos exemplos para todo o resto, ainda que às custas de parte da carreira de atletas que sequer recebem uma premiação em dinheiro pelos títulos mundiais que venceram!

Obviamente um atleta flagrado no doping deve ser punido por ter agido de forma antiética. Mas as punições devem ser razoáveis e educativas.

E jamais devemos esquecer que aqueles atletas são nossos irmãos de tatame e de caminhada. Pessoas tentando fazer sua vida em um esporte ainda amador e que oferece muito pouco retorno a seus campeões. São pessoas que cometeram um erro, e devem pagar por isso. Mas que ainda assim, devem ser respeitadas por sua história pessoal e esportiva.

A vida de superação e esforço de Paulo Miyao é bastante conhecida, tendo ainda garoto deixado sua pequena cidade no interior do Paraná junto com o irmão João para morar na academia de Cícero Costha em busca de um sonho. Durante muitos anos, seus dias se resumiram a treinos, dietas, mais treinos, noites de sono no tatame, e campeonatos nos finais de semana para tentarem fazer um dinheiro extra. Não estamos falando de um atleta multimilionário, campeão do UFC ou jogador de futebol, mas um garoto simples e guerreiro que sempre fez tudo que lhe disseram que deveria fazer para alcançar seu sonho.

Ele errou. Mas todo erro precisa ser visto em um contexto.

 

V – Conclusão: No Jiu Jitsu Brasileiro, o antidoping é “pra inglês ver”

O uso de doping para melhorar sua performance competitiva em um esporte que possui uma política antidoping é claramente uma tentativa de trapaça. “Todo mundo usa” pode até ser verdade, mas não muda o fato de que doping é errado e precisa ser punido.

Mas precisamos conseguir enxergar além deste ponto na discussão que eu tentei trazer aqui.

Na forma atual, o teste antidoping promovido pela IBJJF é extremamente ineficiente, e parece buscar não um esporte mais limpo, justo e profissional, mas sim apenas passar a impressão de um esporte mais limpo, justo e profissional! Busca-se valorizar a imagem do esporte (e por consequência, da federação) antes de se buscar resolver o problema da existência de atletas dopados.

Se o objetivo é realmente reprimir o uso de substâncias proibidas, não é suficiente testar apenas alguns campeões. Não é suficiente realizar um exame com data e local certos. E principalmente não é suficiente e nem justo usar os atletas que falharam no teste como bodes expiatórios, com punições muitas vezes pesadas e desproporcionais à violação cometida.

Afinal, no fim das contas, ainda não há nenhum tipo ou quantidade de esteroide que fará você ficar bom no Jiu Jitsu!

  • Testar somente o campeão é tão falho, ineficiente e sem sentido, que não precisava nem de um texto tão enorme para provar. De qualquer forma, parabéns pela enorme contribuição. Acho que agora não tem como alguém insistir em apoiar esses testes pra ingles ver.

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