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A ascensão e queda de McGregor: Até quando o favorecimento é aceitável

Foto: Divulgação / acervo da internet

Foto: Divulgação / acervo da internet

Há um tempo atrás o UFC descobriu que um certo lutador irlandês tinha potencial para vender bastante Pay-Per-View. Estamos falando de Conor McGregor, lutador de 27 anos e atual campeão dos pesos pena. Mas nessa época ele ainda não era campeão, sequer estava ranqueado entre os tops. Mas ele precisou de apenas um minuto para nocautear Marcus Brimage em sua estréia e faturar o prêmio de Nocaute da noite. Após o evento, Dana White, presidente da organização, rasgou elogios ao novo contratado dizendo que Foi sua primeira luta no UFC e ele foi lá e ganhou o octógono como se estivesse em sua centésima luta”. Até então o mandatário do evento havia conhecido apenas as habilidades de luta do irlandês. Entretanto o que fez a diferença foi quando ele conheceu suas habilidades comerciais.

Em sua terceira luta pela organização, McGregor já encabeçava o card como main event. Das 8 lutas que fez pelo UFC, em 5 ele viu o seu nome no título. E no UFC 200, maior evento da companhia nos últimos anos, ele também estará na luta principal. Resumindo, Conor McGregor roubou a cena.

Nós poderíamos ficar aqui discutindo por horas quais foram os motivos que fizeram com que o Conor se tornasse tão rapidamente o fenômeno comercial que é. Nocautes rápidos? Trash talking? Seria por ele ser irlandês? O fato é que ele não é o primeiro lutador do evento a ter esses atributos, talvez o primeiro a ter todos juntos, mas isso não quer dizer que se amanhã surgir um outro trash talker nocauteador irlandês, ele vai se tornar uma estrela tão rapidamente quanto o McGregor. São outros os motivos que fazem fenômenos como esse surgirem.

Um exemplo de outro fenômeno comercial é o Georges St. Pierre, ex-campeão dos meio-médios e atualmente aposentado do esporte.  Ao contrário do Conor, GSP não tinha um estilo de luta chamativo, não era um trash talker, e mesmo assim foi um dos maiores vendedores de Pay-Per-View da história do esporte. Muitos podem usar o argumento de que ele vendia muito por ser canadense, e o Canadá foi um mercado muito bem explorado pelo UFC. Porém dezenas de outros canadenses passaram pela organização e nenhum deles chegou sequer perto de se tornar um fenômeno de vendas como o GSP. Outros podem argumentar que ele foi um campeão dominante, mas o UFC teve outros campeões dominantes que não venderam tanto quanto o canadense (Anderson Silva, Jon Jones, José Aldo e Demetrious Johnson são exemplos). Já o McGregor conseguiu se mostrar um baita vendedor antes mesmo de se tornar campeão, o que mostra que nem sempre o fato de ser campeão é fator determinante para um lutador vender bastante PPV. Muito menos a nacionalidade. Esses caras tem uma estrela por trás deles que não pode ser vista a olho nu. Porém além disso, existe um outro fator que também influencia bastante para que eles alcancem esses números: A preferência do patrão.

E esse é o ponto principal desse artigo. A ascensão de Conor McGregor e o comparativo com GSP mostraram que eles tem sim um talento natural para vender, porém ambos tem ao seu lado o Dana White e todo o staff do UFC, ajudando-os a se promoverem, e isso faz muita diferença. Falando agora mais especificamente do McGregor, desde o momento em que o Dana percebeu a oportunidade de fazer muito dinheiro que tinha em mãos, ele facilitou claramente o caminho do Conor até a disputa de cinturão. Pra começar deu apenas strikers para o irlandês enfrentar, pois como o McGregor também é striker, isso favorecia seu estilo de jogo. Ele pôde lutar mais solto sabendo que seus adversários teoricamente não iriam tentar levar a luta pro chão. A luta que o credenciou a disputa de título foi contra o alemão Dennis Siver, que é um bom lutador, mas longe de ser um desafio a altura para se credenciar a um title shot. Claro que o Conor tem totais méritos por ter vencido com propriedade todos os adversários que lhe foram oferecidos, inclusive acumulando prêmios de performance da noite devido a seus nocautes devastadores. Mas o irlandês não precisou enfrentar nenhum wrestler antes de disputar o cinturão, o que mostra que o UFC ofereceu para ele um caminho mais fácil (ou menos difícil) para conseguir enfim enfrentar o campeão. E de fato o irlandês conseguiu chegar a tão almejada (por ele e pelo UFC) disputa de cinturão, e num primeiro momento venceu o wrestler Chad Mendes (finalmente lutou contra um grappler, porém vale lembrar que essa luta aconteceu em short notice, devido a uma lesão do então campeão Aldo) e conquistou o cinturão interino, e na sequência em um dos maiores momentos da história do esporte, nocauteou o até então tido como invencível José Aldo em apenas 13 segundos, conquistando então o cinturão linear da categoria, e fazendo seu hype alcançar níveis estratosféricos.

Acontece que até então, o claro favorecimento ao McGregor estava em um nível, digamos, aceitável.  Porém depois de conquistar o cinturão, o UFC passou a fazer algumas trapalhadas. Primeiro, ao invés de defender seu recém conquistado cinturão, ele foi escalado para uma super luta contra o campeão da categoria de cima, Rafael dos Anjos. Até então tudo bem já que além de uma super luta ser interessante para todos os fãs do esporte, ainda por cima comercialmente isso foi uma jogada de mestre, já que se perdesse a luta, o Conor continuaria com seu cinturão dos penas, e se vencesse, teria 2 cinturões e daria o dobro de lucro, ou seja, uma situação ganha-ganha para o UFC.

Porém o Rafael dos Anjos se contundiu, e o UFC passou a apresentar seguidas falhas de gestão, ao continuar tentando favorecer a qualquer custo sua galinha dos ovos de ouro. Então mesmo tendo outros lutadores pedindo a luta, como Donald Cerrone, que estava ativo (vinha de uma vitória rápida poucos dias antes do Rafael se machucar) e Anthony Pettis, preferiram escolher a dedo o Nate Diaz (que estava de férias, tomando tequilas no México), por ter um estilo que teoricamente casava com o do McGregor, tanto que isso foi comprovado na prática já que no primeiro round o irlandês foi bem superior. Porém esqueceram de dois detalhes: O Nate Diaz tem um queixo de titânio e é triatleta, portanto tem uma resistência diferenciada e nunca demonstrou cansaço enquanto lutava. Então mesmo vindo das férias diretamente pra luta, sem ter passado por um camp adequado, o californiano absorveu bem os potentes socos do Conor, não se cansou e conseguiu virar a luta, vencendo por finalização no segundo round.

Depois disso todos imaginavam que o Conor iria voltar para sua categoria original e defender seu cinturão. Porém o UFC conseguiu ultrapassar qualquer limite aceitável de favorecimento a um atleta. Agendaram uma revanche contra o Nate, sem sentido algum. Depois do Diaz estragar completamente os planos da organização, estão dando uma chance pro irlandês se redimir. E isso vai além dos limites toleráveis de favorecimento, uma revanche numa luta casada com resultado inquestionável não faz o menor sentido, tendo como único motivo satisfazer a vontade do McGregor de recuperar seu orgulho ferido. Mas e se o Conor perder de novo? E se depois disso ele perder o cinturão dos penas para o vencedor de Aldo vs Edgar? O que o UFC irá fazer para favorecer sua maior estrela? Eles já ultrapassaram uma linha entre o tolerável e o ridículo, tenho até medo das próximas decisões que irão tomar. Ferir os fatores básicos esportivos eles já estão fazendo há algum tempo, mas até onde eles estão dispostos a deixar o esporte de lado para priorizar apenas os negócios?

About Brutus

Filipe "Brutus" Andraus tem 29 anos e é fanático por MMA desde os primórdios. É formado em marketing e atua na área comercial. Em suas colunas irá explorar o MMA de um ponto de vista diferente, analisando os fatores comerciais, esportivos e de entretenimento.
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