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Da casa tomada pela enchente a campeão mundial: a redenção de José Rinaldo nos tatames de Las Vegas

Em março de 2019, uma enchente atingiu São Paulo e o ABC Paulista numa segunda-feira. Nas regiões, vítimas fatais, ruas devastadas e várias casas e comércios tomados pela água, fazendo com que famílias e empresários perdessem todos os seus bens.

Uma das famílias que perdeu tudo foi a de José Rinaldo. Ele mora em São Bernardo do Campo, com a esposa, duas filhas e a sogra. Durante a chuva forte, ele voltou para casa e acabou ficando por lá, sozinho, porque a água subiu muito rápido e não tinha como sair. Dentro de um sótão, ele se manteve protegido por quase 24 horas, sem poder dar sinal de vida a ninguém.

No final da tarde de terça, alguns amigos de Rinaldo foram resgatá-lo com uma prancha de surfe e ele estava lá, sendo televisionado pela mídia nacional que acompanhou o encontro entre Rinaldo e a esposa, Ana. Todo mundo reparou que durante o resgate feito pelos amigos do jiu-jitsu e da igreja, ele tinha uma sacola na mão. “Salvei o kimono”, disse ele.

Ana aproveitou para exaltar as vitórias do marido no tatame. Não é para menos: Rinaldo é campeão Brasileiro, Sul-Americano, venceu o Paulista incontáveis vezes e agora, é o mais novo campeão mundial máster 3, peso (pesado) e absoluto na faixa marrom. Mais do que isto, ele recebeu no pódio das mãos do professor Paulo Satoshi Ono, a tão sonhada faixa preta.

Atleta da Atos Jiu-Jitsu/Ono Dojo, Rinaldo tem 42 anos e treina jiu-jitsu há cerca de 7. Antes mesmo da enchente, já estava nos planos dele competir o Mundial de Máster, em Las Vegas. Mas como a maioria dos atletas, ele tinha o impeditivo financeiro. Educador físico, ele perdeu o emprego no meio do planejamento para a competição e nem isto fez com que ele desistisse.

A enchente aconteceu na semana que antecedia uma das etapas do Campeonato Paulista, em Barueri, o que o fez deixar a competição de lado naquele final de semana. O passaporte, que ele tinha emitido para iniciar o processo de visto para os Estados Unidos, estava tomado de lama entre móveis, roupas e alimentos. E, além disso, ele ainda precisava reerguer o lar.

As pessoas que o conheciam se mobilizaram para dar suporte e reconstruir a vida. Rinaldo fez sua parte: continuou treinando e paralelo a isto, trabalhando como motorista de aplicativo para levantar uma renda e sustentar a família. Os problemas eram constantes: carro quebrado, a casa perdida na enchente, o desemprego… Até que, mais tarde, ele conseguiu um apoiador que o ofereceu três passagens para o Mundial.

Na hora, ele pensou que devia levar seus professores para a competição, mas as três passagens não seriam o suficiente; eram duas para sua ida e volta e a terceira, ficaria avulsa. Além disso, ele ainda teria todos os gastos que acarretam uma viagem para o exterior, com o detalhe do dólar alto.

Douglas Ono, líder da Atos de São Paulo, afirmou que não poderia acompanha-lo na jornada norte-americana porque, além de ser o responsável pelas aulas da Academia Ono, também dá aulas em um colégio de educação infantil em São Caetano do Sul. Paulo Ono, também líder da equipe, foi o ‘escolhido’ para embarcar com ele, o que somou um desafio a mais.

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Campeão do mundo… Oss

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Mais uma passagem, mais um visto, mais uma inscrição. Para levantar o dinheiro, Rinaldo fez uma vaquinha online, de onde conseguiu tirar 3 mil reais. Ele também conseguiu doação de diversos produtos para premiar em uma rifa – que esgotou muito rápido e foi vencida por um dos alunos da academia.

Ele também frequenta a igreja Bola de Neve em São Caetano, que contou com diversas mobilizações para que eles conseguissem embarcar para os Estados Unidos com o menor perrengue financeiro possível. Neste meio tempo, alguns companheiros de treino foram se juntando para competir também. Fábio Borsato, faixa roxa, embarcou e competirá nos próximos dias. Alex Heleno, também faixa roxa da Atos, acabou ficando de fora por conta do visto negado.

No Mundial, Rinaldo fez um total de 8 lutas na última quarta-feira (21), sendo quatro no peso e quatro no absoluto. As duas finais, ele venceu da mesma forma: finalizando no triângulo. A redenção foi ainda maior: em oito lutas, ele não tomou nenhum ponto e nenhuma vantagem.

Rinaldo foi o primeiro campeão mundial que saiu da equipe de Douglas e Paulo Ono e agora, é um dos 10 faixas pretas formados por Douglas. O kimono que ele salvou na enchente não foi o mesmo que ele embarcou para os Estados Unidos, mas a força dele, sem dúvidas, foi física e mentalmente mostrada nos tatames do Las Vegas Convention Center e agora, ele se prepara para os novos desafios da faixa preta.