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Os sacrifícios que muitas mulheres do jiu-jitsu fazem, mas ninguém fala sobre

Melissa Davis (de kimono), autora do texto original

Enquanto alguns elementos de sacrifício sejam necessários para conquistar seus objetivos – especialmente em um esporte como o jiu-jitsu – algumas coisas são mais difíceis de aceitar do que outras. Alguns custos não superam os benefícios.

A Mayara Munhós fez uma tradução livre de um texto escrito pela faixa marrom Melissa Davis ao FloGrappling, no qual ela fala sobre a escolha de competir em algo nível e isso significar ter que escolher entre a maternidade e realizar um sonho.

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Abrir mão de algumas coisas é um fato da vida. Você quer um diploma. Você vai para a escola e você trabalha. Você quer perder peso, você se joga numa dieta. Você precisa aprender um novo idioma, você luta através de um estudo doloroso e vai ganhando prática. O desconforto é quase sempre o custo para alcançar coisas boas. Temos que abrir mão das coisas em tudo o que fazemos.

Eu nunca tive nenhum problema de trabalhar duro pelas minhas realizações – eu tive um trabalho em tempo integral durante minha graduação, consegui minha pós-graduação enquanto treinava jiu-jitsu cinco vezes na semana, fazia pesquisa em laboratório e era voluntária em vários programas de iniciação científica. Eu raramente dormia oito horas por noite.

Ao longo dos meus vinte e poucos anos, e início dos trinta, eu achei que tinha isso bem resolvido. Eu entendia o conceito de “abrir mão”, poderia fazer as escolhas certas e seguir em frente nas áreas que escolhi. Eu fiz o que precisava para conseguir chegar onde eu queria e a vida me parecia aberta e sem limites. Eu não tinha ideia que escolhas e desafios difíceis e muito mais complicados estavam logo ali, ao virar a esquina.

Agora adiantemos para o presente. Vamos focar na carga exercida por atletas femininas: você não pode usar o seu corpo para treinar se está usando-o para o crescimento de um ser humano. Eu estou a cerca de dez anos da idade que é classificada como inicial para “mãe de idade avançada”.

Eu já perdi as contas de quantas pessoas me falaram que eu devia congelar meus óvulos, que eu devia ter filhos agora, que o relógio está correndo. Não param de zoar meus sonhos de conquistar títulos no adulto com 38 anos tendo um trabalho em tempo integral. E quando eu pedi as contas da minha carreira promissora como uma pesquisadora neurocientista de sucesso para trabalhar em casa para uma companhia de nutrição, eu não consigo nem contar quantos olhares de preocupação recebi da minha família, amigos e ex-colegas.

Mas esse não é exatamente o problema; eu sempre fui um pouco diferente. Sejamos realistas, a maioria das mulheres no jiu-jitsu são pontos fora da curva. Não é uma coisa muito tradicional no mundo feminino você arruinar suas mãos e cabelos, ficar suando e estrangulando seus amigos. Muitas de nós somos uma versão crescida das garotas que não se importavam com roupas de princesas, que escalaram árvores e brincavam de lutinhas na lama. Ser diferente não é o problema.

O problema é o relógio: as escolhas cada vez menores que vêm com o passar do tempo, são sobre alguma coisa que você não entende quando é jovem. Nem sempre você terá escolhas. Eu não estarei sempre apta para competir em alto nível. Eu não estarei sempre apta a ter um bebê. A vida está passando rumo ao fim destes dois caminhos distintos e aí mesmo tempo.

Agora minhas escolhas são piores e aterrorizantes: elas não são só minhas. Se eu deixar de competir em alto nível tão cedo, antes de sentir que dei meu melhor e fui o mais bem sucedida que podia nos tatames, antes que eu consiga os pódios que estão nos meus planos de vida, será que vou me lamentar e guardar algum rancor para meu parceiro de vida ou para nossos futuros filhos? Se eu ficar e me empurrar por todo esse caminho e realizar todos os meus sonhos, eu vou perder a minha chance de ter filhos, e a do meu parceiro também? Ele vai guardar algum rancor de mim? Ou pior, e se eu levar isso o mais longe do que eu posso e não for o suficiente, eu posso ficar sem nenhum dos dois?

Como uma faixa azul ou roxa, uma derrota significa apenas voltar para o tatame: aprender mais, treinar mais, olhar para frente e focar no próximo campeonato. Mas atualmente, cada torneio que passa é mais um ano perdido em algo que hoje percebo que possui uma janela temporal cada vez menor.

Levou um tempo, mas eu estou em paz com minha escolha de seguir em frente por enquanto. Eu tenho uma hipoteca a pagar e uma carreira, eu não posso e não quero mudar isso. Eu nunca vou ser capaz de treinar em tempo integral, e tudo bem.

Algumas vezes eu penso que gostaria de ter encontrado o jiu-jitsu mais cedo. Às vezes, eu gostaria de ter me dedicado mais a ele antes de terminar meus estudos e querido começar uma família. Mas na maior parte do tempo, eu só sou grata por ter encontrado o jiu-jitsu.

Você não pode escapar das escolhas, e algumas vezes você nem pode controlá-las. Mas a vida é uma coisa bonita, dolorosa e maravilhosa, e eu prefiro vivê-la  intensamente, prová-la por completo, perder e sofrer do que me esconder e ficar segura.

O jiu-jitsu me ensinou que o desconforto leva ao crescimento, e eu serei muito honrada por essa lição até o dia em que morrer.

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Mayara Munhós é blogueira do espnW Brasil e colaboradora BJJ Fórum. Faixa roxa da Atos Jiu Jitsu / Ono Dojo. Editora de vídeo, social media, formada em Rádio, TV e Internet.